Acadêmico, Comportamento

A palavra [16]: CONCLUSÃO

Quando iniciamos este trabalho, delimitamos nosso percurso intelectual no projeto de monografia, sob a forma de sumário. Agora que chegamos ao momento final da pesquisa, é hora de avaliar se nossos objetivos foram atingidos e de que forma o foram. No primeiro capítulo, buscamos realizar uma contextualização da vida e da obra de Wittgenstein, de modo que pudéssemos adentrar seu pensamento por meio das circunstancialidades nas quais a obra estudada está envolta. Na primeira parte desse capítulo, enfatizamos a trajetória intelectual do autor e as relações que se deram em torno da perspectiva teórica, de maneira a poder perceber como os acontecimentos influenciaram a conhecida reviravolta pragmática. Na segunda parte, relatamos um ponto fundamental de sua teoria, que culmina com a relativização do paradigma da função designativa da linguagem como concepção de uma linguagem ideal. Já na terceira e última parte desse capítulo, destacamos a transformação através da qual Wittgenstein chega à descoberta da função designativa da linguagem como apenas uma entre tantas outras possíveis, e esta viria a ser mesmo não um instrumento de comunicação de um conhecimento já realizado, mas condição de possibilidade para a realização do conhecimento humano enquanto tal. Diante de tais elucidações, acreditamos ter cumprido os objetivos propostos para esse capítulo.

Na primeira parte do segundo capítulo, analisamos a metodologia de Wittgenstein em suas principais obras, ocasião na qual enfatizamos, de forma mais apropriada, a reviravolta metodológica já diversas vezes mencionada neste estudo. Percebemos que nosso filósofo aplicou a si próprio o mesmo pragmatismo que impunha aos escritos de terceiros. Entre pesquisas e analogias, optamos por denominar seu método, na obra estudada, de descritivo-crítico pelos motivos anteriormente mencionados. Na segunda parte, relacionamos as categorias centrais das Investigações Filosóficas com os fundamentos platônico-aristotélicos, visto serem imprescindíveis para que Wittgenstein atingisse seus próprios fundamentos. Platão, por tratar-se do precursor no estudo da linguagem; Aristóteles, por estabelecer as bases sobre as quais a linguagem seria realizada, sendo esta uma estrutura lógica em que o pensamento seria a relação lógica entre o mundo (a realidade) e a linguagem. Na terceira parte, salientamos o rompimento entre a filosofia tradicional e a contemporânea, e encontramos, justamente em Wittgenstein, o elo entre essas duas grandes épocas. Esse filósofo foi o último representante do pensamento filosófico tradicional e o primeiro do contemporâneo e, como tal, responsabilizou-se pela quebra dos paradigmas que os separam fundamentalmente. Se Wittgenstein não respondeu a todas as questões decorrentes desse rompimento, tem, pelo menos, o mérito de havê-lo rompido, o que, por si só, é algo louvável. Assim, damos conta de mais um capítulo cujo desfecho converge rumo ao proposto para tal.

No terceiro capítulo, na primeira parte, tratamos dos fenômenos que se configuram como plano de fundo de toda a argumentação em torno da obra wittgensteiniana: a realidade física, que Wittgenstein chama de totalidade dos fatos e cuja linguagem tenta abarcar; a consciência, que supõe todo e qualquer agir humano em torno da realidade; e a subjetividade, que, para o filósofo em evidência, é a forma pela qual a linguagem se manifesta indeterminada. Na segunda parte, concebemos uma estética da linguagem a partir das noções colhidas nas duas principais categorias tratadas nas Investigações Filosóficas: as formas de vida e os jogos de linguagem. Wittgenstein define a forma de vida como sendo o contexto de ação no qual a linguagem se desenvolve (esta é sua imagem), e o jogo de linguagem como sendo a relação entre cultura e linguagem (esta é sua fisiologia). Por fim, na terceira parte desse último capítulo, buscamos criar condições para responder à pergunta em função da qual toda a argumentação foi estruturada. Questão esta recolhida das Investigações Filosóficas e respondida de modo a encontrar o assentimento de seu próprio autor. A significação de uma palavra é seu uso na linguagem – esta é a resposta para a questão central de nosso estudo. Agora, podemos dar por encerrada nossa argumentação.

Antes das considerações finais, julgamos necessário esclarecer que o pretendido com esta exposição não foi, de modo algum, demonstrar, ou provar nossos pontos de vista em relação à argumentação de Wittgenstein. Nosso objetivo primordial foi, concordando com o autor, procurar, na medida do possível, apresentar os fatos sem querer dar a eles uma segunda versão, pois concluímos que, para o trabalho filosófico, é mais importante a exposição, a explanação dos fatos em busca de uma proximidade maior com isto que se convencionou chamar de verdade, embora devamos concordar que alcançar uma verdade absoluta seja, de fato, impossível.

Finalmente, podemos dizer que a impressionante transformação espiritual pela qual Wittgenstein passou foi, certamente, determinante para a reviravolta linguístico-pragmática operada em sua vida. Tal acontecimento trouxe consequências radicais para todas as áreas do conhecimento na contemporaneidade. A linguagem, tradicionalmente concebida como uma imagem do mundo cuja principal função seria descrevê-lo, foi elevada ao status de condição de possibilidade de realização desse conhecimento, isto é, passou a ser o centro doador de significação dos fatos da realidade, visto que, com ela, conhecem-se e aprendem-se os fatos da realidade.

Nestes momentos finais, resta-nos ainda considerar o fato de que a concepção do fenômeno linguístico foi radicalmente modificada com Wittgenstein e a partir dele. Se, de forma geral, o senso comum porventura continua a ancorar suas experiências linguísticas em concepções tradicionais, podemos concordar que, cientificamente, essa concepção é, hoje, algo completamente defasado, o que nos leva a perceber a importância do pensamento filosófico de Wittgenstein para a contemporaneidade. Após a leitura dos escritos desse filósofo, é possível perceber que especialistas em linguagem, das diversas áreas do conhecimento, apropriam-se dessas descobertas no âmbito de suas respectivas profissões. Estudiosos das áreas da Semiótica, do Marketing, das Letras e da Linguística, em geral, têm se utilizado, cada vez mais, do legado wittgensteiniano, de modo a contribuir para o aperfeiçoamento de suas ideias.

A herança wittgensteiniana tem sido tratada, ao longo do tempo, sob as formas e os aspectos mais diversos, cada um contribuindo, com sua interpretação, para a expansão do conjunto da obra de Wittgenstein. Uns acusam outros de incorrer nos mais variados erros interpretativos, de considerar, ou de desconsiderar certos aspectos, contextos e relações nos quais o autor teria se baseado para chegar a suas descobertas. Independentemente do fato de haver interpretações certas ou erradas, o que fica é a relevância de todo o conjunto de argumentações desses estudiosos para o enriquecimento do conhecimento do fenômeno linguístico e desse fenômeno como condição para a evolução do conhecimento humano de modo geral.


Links:

Anúncios
Acadêmico, Comportamento

A palavra [15]: A palavra enquanto unidade central de significação

A obra aqui explorada tem como cerne o estudo da palavra e seu uso no processo de interação social dos homens. Procura considerá-la em todas as formas e sob todos os aspectos, inclusive, a partir das classes gramaticais e das convenções que se dão em torno do processo linguístico. A palavra é o meio pelo qual o homem pode expressar todo o conjunto de signos linguísticos a que tem acesso. Sendo a palavra a unidade central de significação de nossa linguagem, é através dela que podemos acessar os infinitos significados da realidade, instrumentalizando-nos para interpretá-la. A palavra tem a propriedade da flexibilidade, isto é, guarda em si todos os componentes da significação. Mais que isso: quando associada a outras palavras, essa capacidade de significar sofre, por assim dizer, uma espécie de dilatação, permitindo que possamos, através do significado, expressar coisas, atos, processos e fenômenos. Se considerarmos, ainda, as circunstâncias nas quais as palavras são postas, elas vão além daquilo que, comumente, percebemos. Elas assumem formas, aspectos, modos e tempos que variam de acordo com os contextos em que se situam.

No primeiro capítulo deste trabalho, dissemos, conforme a obra estudada, que Wittgenstein vê, na palavra, a unidade central de significação de nosso sistema linguístico, de modo que ela é que torna possível a articulação do pensamento em frases, porquanto é fundamental para a forma humana de se expressar. Vejamos, nas palavras do autor, um exemplo do que acima é dito, ao se referir a certo escrito de Santo Agostinho na obra Confissões.

“[…] Nessas palavras temos, assim me parece, uma determinada imagem da essência da linguagem humana. A saber, esta: as palavras da linguagem denominam objetos – frases são ligações de tais denominações. – Nesta imagem da linguagem encontramos as raízes da idéia: cada palavra tem uma significação. Esta significação é agregada à palavra. É o objeto que a palavra substitui.”[1]

Temos, então, já no parágrafo primeiro das Investigações Filosóficas, o exemplo de um diálogo em que Wittgenstein enfatiza, de forma simples, a função designativa da linguagem. Isso, contudo, se a compreendermos de acordo com os parâmetros tradicionais.

Prosseguindo, porém, a leitura do mesmo parágrafo e fazendo-a com atenção, vemos, um pouco mais adiante, que o que nosso filósofo pretende mostrar é bem diferente do que nossa observação nos induz a fazer de modo imediato. Analisemos a conclusão do parágrafo:

[…] “mas como ele sabe onde e como procurar a palavra ‘vermelho’, e o que vai fazer com a palavra ‘cinco’?’ – Ora, suponho que ele aja como eu descrevi. As explicações têm em algum lugar um fim. – Mas qual é a significação da palavra ‘cinco’? – De tal significação nada foi falado aqui; apenas, de como a palavra ‘cinco’ é usada.”[2]

Esse fragmento ressalta o modo como a palavra está sendo empregada dentro da forma de vida que a precede. Notemos que, pela maneira tradicional de pensar, somos induzidos a procurar pelo significado da palavra em detrimento de sua situação contextual, o que, de certa forma, invalida a análise que se faz nessas condições, visto que, assim, o diálogo ficaria desprovido de sentido. Essa é, segundo Wittgenstein, uma ilusão causada pela gramática da língua, que privilegia o significando do conceito e deixa de considerar o modo como as palavras são empregadas dentro de um processo. Ao que parece, encontramos, assim, a chave do pensamento do segundo Wittgenstein.

Não é que a palavra substitua o objeto ao designá-lo; o que ela faz é afirmar a existência desse objeto em função de determinados referenciais. Estes, por sua vez, são colocados em segundo plano por nós quando aprendemos o uso da linguagem por meio das normas gramaticais. Isso ocorre em virtude de serem as normas idealizadas sem a consideração das infinitas formas de vidas em que um processo pode acontecer. Dessa maneira, nossa compreensão do signo se torna errada pelo fato de desconhecermos, ou de mal identificarmos o núcleo segundo o qual o significado se processa. Explicando melhor: se procuramos pelo significado de uma palavra considerando a palavra em si mesma, podemos acreditar num significado fixo e imutável – o conceito. No entanto, se procurarmos pelo significado de uma palavra considerando a forma de vida na qual ela está inserida e a maneira como ela é empregada, teremos um significado variável de acordo com as circunstâncias. E, como, na práxis linguística cotidiana, isso é o que, de fato, acontece, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que a palavra, enquanto unidade de significação, não guarda ela própria seu significado, mas que este se processa conforme o uso que dela é feito.

Diante do acima exposto, remetendo à introdução do nosso trabalho, estando amplamente familiarizado com as categorias fundamentais do pensamento wittgensteiniano, e acreditando haver criado as condições necessárias para realização de nosso intento, podemos, então, responder, de forma apropriada, por que Wittgenstein diz, em sua obra Investigações Filosóficas, que a significação de uma palavra é seu uso na linguagem.

Durante todo o percurso que, agora, será concluído, procuramos enfatizar, de acordo com as obras estudadas, a questão dos contextos enquanto instância central de significação das expressões linguísticas. Os contextos, os quais Wittgenstein também chama de formas de vida, retratam o fenômeno que se manifesta através da interação social dos homens. É esse fenômeno, precisamente, a origem de todo o conjunto de significações presentes numa forma de vida: o jogo de linguagem. Esse jogo é o movimento que dá forma a uma forma de vida. É ele que determina o que se pode predicar de uma forma de vida e aquilo que nela é predicável. É, pois, resultado do processo de interação dos homens. Nessa perspectiva, Wittgenstein ressalta a maneira como são usadas as palavras dentro de um jogo, salientando a força das circunstâncias sobre o sentido das palavras e considerando os arredores do processo como imprescindíveis à materialização dos fenômenos linguísticos. Nesse sentido, conforme Oliveira (Oliveira, 2004), em sua Reviravolta Linguístico-pragmática, “a significação das palavras só pode ser esclarecida por meio do exame das formas de vida, dos contextos em que essas palavras ocorrem, pois é o uso que decide sobre a significação das expressões lingüísticas”[3].

Ao que constatamos no § 43 das Investigações Filosóficas, “pode-se, para uma grande classe de casos de utilização da palavra ‘significação’ – senão para todos os casos de sua utilização -, explicá-la assim: a significação de uma palavra é seu uso na linguagem”[4]. E ainda: “Todo signo sozinho parece morto. O que lhe dá vida? – No uso, ele vive. Tem então a viva respiração em si? – Ou o uso é sua respiração?”[5].

Desse modo, como tivemos oportunidade de constatar, em quase todos os momentos do estudo dessa obra, fica nossa questão fundamental respondida assim: o significado das palavras se dá por seu uso, ou seja, pela forma como a utilizamos quando interagimos com os demais. Não há significado fixo, imutável. Se assim fosse, nossa comunicação seria mecânica e desprovida de sentido na maioria das vezes. Para compreendermos o significado de uma palavra, temos que levar em conta os arredores do processo: as circunstâncias, os elementos extralinguísticos – o contexto de maneira geral.

Finalmente, após tantos parênteses e pontos finais, cremos ter cumprido a última etapa de nosso trabalho. Considerando a finalidade com a qual esta pesquisa foi realizada, isto é, a de tratar dos fundamentos da linguagem levando em conta as perspectivas que se abrem para uma nova forma de pensá-la no estágio atual de conhecimento da humanidade, esmiuçamos a obra de Wittgenstein, pondo-a em relação com antigas e novas categorias de pensamento, inclusive, trazendo, para o corpo deste trabalho, outras já bem esgotadas nos dias de hoje – como é possível notar. Salientamos que, para esta composição, privilegiamos o uso de uma linguagem simples, que pudesse, de forma clara, expressar nosso posicionamento em relação às orientações encontradas nas diversas fontes de pesquisa e, sobretudo, na obra que nos inspirou a realizar esse constructo. Esperamos, com isso, contribuir para o crescimento das pesquisas em torno desse tema, que, por si mesmo, já é bastante instigante, de modo que, agora, podemos, sem mais pormenores, colocar o último e definitivo ponto final.


[1] WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas. São Paulo: Nova Cultural, 1989. § 1. p. 9.

[2] Ibid., § 1, p. 10.

[3] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de, op. cit., p. 132.

[4] WITTGENSTEIN, Ludwig, op. cit., § 43, p. 28.

[5] Ibid., § 432, p. 131.

Links:

Acadêmico, Comportamento

A palavra [14]: Estética e fisiologia da linguagem

Dissemos anteriormente que as palavras adquirem significação mediante as circunstâncias, e que as circunstâncias se vinculam às maneiras de interação social dos homens. Se assim o é, então, é pela análise das formas de vida que podemos vir a compreender nossa própria linguagem. Concebendo o termo forma de vida, Wittgenstein nomeou as relações que se dão espontaneamente, entre cultura e linguagem, dentro do contexto de ação em que são efetivadas. Para ele, a forma de vida é um fenômeno que deve ser compreendido como resultado de processos linguísticos e extralinguísticos. Desse modo, fazer uso da linguagem é uma prática que deve ser encarada como outras ações por nós desempenhadas corriqueiramente. A forma de vida é, nesse sentido, o contexto geral em que se desenvolve a linguagem humana, melhor dizendo, é a imagem da linguagem. É nela que se aprende o comportar-se frente à variabilidade das situações e é por meio dela que se dá a própria história do homem.

Às relações que se dão no âmbito de uma forma de vida Wittgenstein chama jogo de linguagem. Este é um fenômeno intrínseco à forma de vida. É um movimento composto de elementos linguísticos e extralinguísticos que manifestam a fisiologia da linguagem no instante e na forma em que esta se realiza. Sobre isso, disse Wittgenstein: “Chamarei também de ‘jogos de linguagem’ o conjunto da linguagem e das atividades com as quais está interligada”[1]. O jogo de linguagem é o meio pelo qual se expressa, através de palavras ou de outras formas, o sentido dos signos relacionados a uma forma de vida específica, considerando-se a indeterminabilidade das situações e as possíveis formas que podem assumir quando postas em relação com outros referenciais.

O que Wittgenstein quer salientar é o caráter de fluidez da realidade, manifestado nos jogos de linguagem, dentro do contexto da forma de vida. Nos termos do autor, “o termo ‘jogo de linguagem’ deve aqui salientar que o falar da linguagem é uma parte de uma atividade ou de uma forma de vida”[2]. O jogo de linguagem não é produto de uma forma de vida, mas algo que ocorre simultaneamente a ela, numa relação íntima e concatenada; não podem, assim, ser desvinculados um do outro. É um jogo regido por regras que, todavia, não se impõem de maneira rígida, permitindo que os participantes possam escolher o jeito mais adequado, ou mesmo, mais confortável, de se manifestarem mediante o uso das palavras. Isso tendo em vista que não há como estabelecer uma regra específica para cada ação, ou prever determinada ação em virtude de uma regra pré-estabelecida. Wittgenstein enfatiza:

“Que diremos então? Você tem regras prontas para tais casos – que digam se se podem ainda chamar a isto de ‘poltrona’?’. Mas elas nos escapam quando usamos a palavra ‘poltrona’; e devemos dizer que não ligamos a esta palavra nenhuma significação, uma vez que não estamos equipados com regras para todas as possibilidades de seu emprego?”[3]


[1] WITTGENSTEIN, Ludwig, op. cit., § 7, p. 12.

[2] Ibid., § 23, p. 18.

[3] WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas. São Paulo: Nova Cultural, 1989. § 80. p. 49.

Links:

Acadêmico, Comportamento

A palavra [13]: Realidade, consciência e subjetividade

A maneira como a realidade é percebida conta em muito para a formação disto que chamamos de significação. Por isso achamos conveniente abrir espaço para abordá-la, levando-se em conta sua aplicação como pano de fundo para toda a nossa argumentação. O segundo Wittgenstein pretende desvincular da concepção tradicional de realidade toda a conotação metafísica que esta adquiriu com o tempo, pelo uso que dela foi feito. Realidade, em sua compreensão, é algo que se constrói cotidianamente, nas relações que os homens formam entre si. Wittgenstein não define com todos os termos o que seja realidade, mas oferece contextos que nos levam a induzi-la a partir de uma noção que ganha corpo pela análise dos contextos enfatizados em todo corpo da obra Investigações Filosóficas.

Wittgenstein busca ajustar o sentido de realidade às práticas linguísticas efetivadas. Melhor explicando: assim como deseja que o fenômeno linguístico seja concebido pela imanência de sua prática, deseja colocar o entendimento de realidade na ordem das coisas imanentes. Uma coisa existe efetivamente quando dela se pode predicar algo; quando se pode predicar algo de alguma coisa, essa coisa é tornada um fato. Considerando fato como a relação que existe entre o que ocorre e o que disso se predica, a realidade vem a ser, portanto, a totalidade dos fatos. Estabelecendo essa conexão como uma categoria de seu pensamento, Wittgenstein pretende, justamente, salientar o caráter relacional no qual baseia sua apreensão de realidade.

A consequência dessa concepção de realidade para o fenômeno da linguagem se reflete de forma impactante no processo cognoscitivo-linguístico, visto que implica também uma nova compreensão de consciência. Também desvinculada de concepções metafísicas, essa nova consciência é forjada numa espécie de intersubjetividade (Wittgenstein não formula propriamente uma teoria a esse respeito, o que impede uma argumentação mais aprofundada). É concebida num plano em que as subjetividades fiquem postas em relação direta, de modo a eliminar a noção de uma linguagem subjetivista e individualista.

“Individualista porque se abstrai da função comunicativa e interativa da linguagem. Subjetivista porque considera as convenções e regras linguísticas como dados imediatos da intuição do sujeito falante, e não como resultado de um processo de socialização.”[1]

Isso nos leva a concluir que, se o fenômeno da linguagem é algo construído em comunidade – como, de fato, é – não poderia haver linguagem baseada numa consciência dessa espécie. Observamos que, para que essa linha de raciocínio tenha efeito, é preciso compreender essa noção de subjetivismo como um mal-entendido do pensamento tradicional, que considera as convenções que se dão em torno do fenômeno linguístico como elementos da subjetividade de quem comunica algo e não como fruto do processo de socialização do homem. “Como é possível nessa perspectiva a comunicação humana? Como é possível a linguagem como um fenômeno social? Que sentido tem descrever fenômenos psíquicos individuais, se os outros não têm acesso a essa dimensão?”[2]

Tanto não é possível que haja linguagem sem consciência como, também, não há consciência sem linguagem. Ciente disso, Wittgenstein pretende eliminar a concepção de uma linguagem mediada por fenômenos objetivos, de modo a permitir que o fenômeno linguístico possa fazer sentido dentro da noção de uma linguagem construída como resultado de processos de interações sociais. Busca identificar soluções para operar a transformação dos elementos subjetivos em fatos, de maneira que a passagem entre o simbólico e o concreto possa ser resolvida sem o apelo ontológico da metafísica. Já neste ponto da argumentação, cremos que a metafísica pode, por fim, ser substituída pela subjetividade que encontra, na consciência wittgensteiniana, o amparo para a realização dessa transição. Sendo a subjetividade a faculdade da interpretação, é por meio da intersubjetividade que se faz possível a relação entre uma linguagem imanente (como pretende Wittgenstein) e as coisas que, com ela, predicamos. Resumindo, diz Oliveira:

“Em suma, para Wittgenstein, as expressões lingüísticas têm sentido porque há hábitos determinados de manejar com elas, que são intersubjetivamente válidos. É precisamente o hábito que sanciona sua significação determinada e constitui o jogo de linguagem em questão, que é uma forma específica da atividade humana.”[3]


[1]jOLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 125.

[2] Ibid., p. 134.

[3]jOLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 141.

Links:

Acadêmico, Comportamento

A palavra [12]: ESTÉTICA E FISIOLOGIA DO FENÔMENO DA LINGUAGEM

Neste capítulo, buscaremos, de acordo com a proposta deste estudo, responder, juntamente com Wittgenstein, à pergunta em função da qual este trabalho propriamente existe. Neste momento da exposição, daremos ênfase ao argumento do filósofo, à forma como seu raciocínio foi dirigido e à finalidade para a qual sua tese se destina. Sem que, de antemão, seja estabelecida uma ordem determinada para o cumprimento desta meta, retomaremos argumentos abordados nos capítulos anteriores, bem como agregaremos outros novos conforme haja exigência. Nossos esforços se concentrarão no sentido de realizar, a partir da apropriação das categorias fundamentais do pensamento de Wittgenstein, uma argumentação coesa que atenda amplamente as questões filosóficas propostas para esta pesquisa. Utilizaremo-nos de argumentação própria, procurando, porém, encontrar assentimento do autor de forma a poder demonstrar como sua teoria é tomada na contemporaneidade e as consequências dela para o pensamento filosófico como um todo. Finalmente, buscaremos realizar esse trabalho traduzindo os componentes de sua forma implícita para uma forma mais clara, segundo o entendimento que dela fazemos e de acordo com a orientação encontrada nas diversas fontes de pesquisa.


Links:

Acadêmico, Comportamento

A palavra [11]: Wittgenstein: o último representante da tradição e o primeiro da contemporaneidade

Wittgenstein absorveu influências das mais variadas, como é possível notar na leitura de suas obras. Teve influências de diversos autores, entre os quais destacamos Boltzmann, Hertz, Schopenhauer, Frege, Russell, Kraus, loos, Weininger, Spengler, Sraffa e Moore[1]. Alguns desses, contemporâneos do filósofo em estudo, não receberam maior menção nesta pesquisa, em virtude de suas obras estarem mais diretamente relacionadas com o Tractatus. Já Platão e Aristóteles, que não têm uma relação direta com nosso filósofo, foram escolhidos para tanto por tratarem, de forma mais específica, dos fundamentos da linguagem e dá lógica. Nesse sentido, podemos situá-los como influências indispensáveis para a compreensão da segunda fase de Wittgenstein.

Situado entre duas significativas vertentes filosóficas, o Positivismo Lógico, do Círculo de Viena, e a Escola da Filosofia da Linguagem, do Grupo de Oxford, Wittgenstein influenciou bastante o pensamento de sua época. A escola do Círculo de Viena absorveu várias das ideias do filósofo em sua primeira fase, adotando, entre outras, a teoria do princípio da verificabilidade.[2] Necessário é dizer que nem tudo do trabalho de Wittgenstein foi adotado pelas escolas para as quais serviu de inspiração, como é o caso, por exemplo, da teoria da figuração, rejeitada pela escola. Mesmo assim, alguns de seus mais fiéis seguidores o reverenciam como sendo, ele, o pai do Positivismo Lógico. Fontes externas a nossa pesquisa indicam que isso não é verdade, o que, entretanto, é desnecessário demonstrar neste momento da argumentação. O Grupo de Oxford, por sua vez, adotou em muito a filosofia linguística de Wittgenstein. Também nesse caso, os seguidores mais assíduos chegaram a considerá-lo como o pai da Filosofia Linguística. Conforme indicações, Wittgenstein não foi, nem teve a pretensão de ser, o precursor dessa vertente filosófica; G.E. Moore seria o nome mais provável.[3]

A obra wittgensteiniana exerceu e ainda exerce forte influência no pensamento filosófico contemporâneo. A prova disso é que o filósofo traz, em seus ombros, o peso de haver sido o último representante da tradição e o primeiro da contemporaneidade. Responsabilidade que chamou para si, ao se rebelar contra o modelo o qual ele ajudou a construir.[4] Dessa forma, contribuiu em muito para a expansão do pensamento filosófico ocidental, afastando ao máximo as fronteiras em cada extremo de sua dimensão. A perspectiva do segundo Wittgenstein elevou as possibilidades do conhecimento humano ao concebê-lo como resultado de um processo linguístico construído através das ações do homem. Diria mesmo que, em Wittgenstein, todo o pensamento filosófico, todo o trabalho intelectual que o homem produziu no transcorrer de sua existência é, na verdade, uma grande conversação que gira em torno da linguagem.


[1] GLOCK, Hans-Johann, op. cit., p. 21-23.

[2] WITTGENSTEIN, op. cit., p. 16.

[3] Ibid., p. 17.

[4] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de, op. cit., p. 117.

Links:

Acadêmico, Comportamento

A palavra [10]: dos fundamentos platônico-aristotélicos para os jogos de linguagem

Platão, um dos nomes mais expressivos da tradição, tem o mérito de haver sido o primeiro a tratar da linguagem como objeto de investigação filosófica. A obra Crátilo doou à sua investigação uma pesada carga metafísica. Os conceitos nela contidos baseiam-se na dualidade mundo sensível-mundo inteligível, o que, aliás, é a grande descoberta desse pensador. Ancorou sua investigação na busca pelo significado da palavra, o que equivale à busca pela própria essência das coisas, o qual seria uma causa que subsistisse em relação à própria palavra. Para Platão, as palavras eram criadas por um sábio, o Nomoteta, que, como profundo conhecedor das essências, atribuía com perfeição o significado correspondente à ideia da qual a palavra era meio de expressão.

O que levou Platão a realizar tal empreendimento em busca da desmistificação dos fenômenos linguísticos foi a tomada de posição em relação à retórica do discurso sofista, que considerava carente de legitimação. Para ele, os sofistas acreditavam na instituição da linguagem como fruto de convenção entre os homens, todavia sem haver demonstrado o argumento de forma prática. Platão exerce uma crítica do discurso sofista; não rompe, porém, com a dialética entre eles existente. Essa crítica consistia em uma profunda análise da essência da palavra, na procura pelo elemento imutável a partir do qual seria possível conceber a palavra em um sentido único, isolado das circunstâncias e de qualquer contexto. “Platão acreditava que o único meio era constituir um discurso que contivesse ele próprio seu critério de validade”[1], de modo a enfrentar a manipulação dos conceitos através de seus possíveis significados.

Já Aristóteles não trata da linguagem diretamente; trata da lógica do discurso, da estrutura, da forma que todo enunciado deve ter para expressar e demonstrar algo. Ao procurar uma sistematização do conhecimento, Aristóteles buscou, na verdade, uma maneira através da qual pudesse identificar as estruturas de cada saber específico com uma estrutura maior, ou seja, com uma superestrutura que comportasse todas as outras, porquanto fosse capaz de dar conta da realidade em sua totalidade. A forma encontrada foi, portanto, a instituição de um critério com o qual pudesse validar a identidade entre essas estruturas, isto é, a lógica (então designada, pelo filósofo, de analítica). Aristóteles substituiu a transcendência platônica pelo empirismo e este é uma característica sua. Isso implica um pragmatismo que necessita da observação do real para se concretizar e, com base nessa observação, o filósofo ora enfatizado elaborou uma teoria que pretende promover a compreensão dos enunciados a partir de sua construção gramatical, entendendo esta como condição para uma compreensão da semântica.

Com base nos tópicos acima desenvolvidos, consideramos que três argumentos se mostram relevantes para o desenvolvimento deste capítulo. Primeiro: a essência, que, para Platão, é condição de possibilidade de existência do significado, torna-se, em Aristóteles, substância, que indica a unidade entre o signo e seu significado. Ambas as vertentes são, para o segundo Wittgenstein, fruto do essencialismo do pensamento tradicional que ele próprio se lança ao combate, motivo pelo qual trata de descartá-los. Segundo: do mesmo modo, despreza a dualidade platônica entre o mundo sensível e o mundo inteligível[2], que Aristóteles pretendeu substituir por uma identificação conceitual entre a estrutura do mundo e a do pensamento[3] em razão de que, em sua concepção, não há distinção de mundos como imaginava Platão, e de acreditar, diferentemente de Aristóteles, que a estrutura do mundo nos é dada imediatamente com a da linguagem[4]. Terceiro: tomando a palavra, que, para Platão, é o elemento em função do qual os elementos linguísticos se articulam para construir o significado[5] e a lógica, que, para Aristóteles, é o mecanismo de validação da relação entre palavra e significado[6], Wittgenstein enfatiza a subjetividade humana[7] como mediadora da relação entre palavra e lógica, de modo a poder construir um significado, conceitualmente falando, mais próximo da realidade em sua fluidez.


[1] GARCÍA-ROZA, Luiz Alfredo. Palavra e Verdade na Filosofia Antiga e na Psicanálise. 4. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 61.

[2] REALE, Giovanni. História da filosofia antiga. São Paulo: Loyola, 1994. (Série História da Filosofia). p. 203.

[3] Ibid., p. 468-470.

[4] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de, op. cit., p. 127-128.

[5] GARCÍA-ROZA, Luiz Alfredo, op. cit., p. 58.

[6] REALE, Giovanni, op. cit., p. 456-458.

[7] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de, op. cit., p. 141.

Links: