Música, Rock/Metal

Darkside: três décadas a serviço da música pesada no Brasil

Fundada em 1991, mais ou menos na mesma época em que comecei a ouvir rock,  a banda Darkside é uma das pioneiras do heavy metal no estado do Ceará. Tanto pelo histórico de lutas quanto pela postura dos caras, sempre nutri o maior respeito pela banda. Na verdade, sentia como devesse este texto. Mais do que meras palavras, uma homenagem pela dedicação e persistirem num trabalho que envolve mais amor à música do que recompensas materiais.

fragment_sNo mesmo ano de sua formação, no qual o país ensaiava sua abertura econômica, – e isso mudaria muito as coisas no micro-cosmos do rock local, lançam Fragments of Time (1991), demo tape que continha quatro músicas: Hare Krishna, Suicide, Spiral Zone e Fragments of Time.

gates_Gates to Madness, demo tape de 1993, tinha quatro músicas: Intro/Storms, Gates to Madness, Inferno, The Guardian, Blessed by the Dark. Embalados pelo lançamento, a banda se apresentara ao lado de Angra [SP] e Deadly Fate [RN] em Fortaleza. E, precisamente este, foi meu primeiro espetáculo de heavy metal, portanto, um marco na vida deste que vos escreve. Dessa forma, daquela data em diante passei a acompanhar a banda mais de perto.

Blessed by the Dark, Demo de 1996, continha duas faixas, Mindstorm e a faixa auto intitulada. Ambas as composições fortemente influenciadas por sons da época como Megadeth, Motorhead e Blitzgrieg. Ao vivo a Darkside fazia performances cada vez melhores e numa dessas, ocorreu outro show marcante: quando tocaram ao lado de Genocídio (SP) e Restless (DF). Com produção de alto nível, aquela foi mais uma noite memorável.

A cena evoluíra e, havendo a banda feito shows de abertura para grandes nomes nacionais, conquistaram lugares para tocar e um bom número de seguidores. Todavia, a Darkside se viu obrigada a dar uma pausa nas atividades. Nesse intervalo, surge a Heritage (banda também liderada por Tales), que acaba absorvendo algum material da Darkside nas performances ao vivo, e que, em pouco tempo ganhou notoriedade junto aos fãs.

blessed2No ano 2.000, a Darkside com os fundadores Tales Groo e Aurélio Hulk, contando com alguns membros da Heritage. Relançam a demo tape Blessed by The Dark, agora em CD, e com novas mixagem, masterização e arte. Em 2003, com vistas à promoção de Eclipsed by Soul, que seria o primeiro álbum completo da banda, os caras lançam a promo Shades of Decay. Uma espécie de advanced CD contendo duas faixas (Mindstorm e Shades of Decay), do material que viria a ser lançado na sequência. A demo mostra a banda mais aprimorada tecnicamente.

eclipsedPor falta de apoio, Eclipsed Soul, não foi lançado como o primeiro álbum oficial e acaba sendo saindo em 2004 como mais uma Demo. O material compila músicas de trabalhos anteriores acrescido das músicas Hate Bellow the Skies, Belial, e uma versão acústica para Eclipsed Soul.  O “disco” vem em boa hora e funciona como uma injeção de ânimo no grupo, que cai na estrada novamente.

Entre 2006 e 2010 ocorreram, novamente, algumas reformulações e a banda se apresentava esporadicamente. Todavia, houve muitos momentos memoráveis e um deles certamente foi atuar como open act para Helloween & Gamma Ray diante do maior público da tour brasileira, ocorrida em 2008.

prayersPrayers in Doomsday, gravado em 2011, mas somente lançado em 2012, é o primeiro álbum completo da banda, e dele, já fiz resenha aqui no blog. Para simplificar, posso afirmar que “Prayers…” é um excelente disco, com composições altamente heavy metal mas que, apresentou uma produção pouco exigente. A banda perdeu um pouco em resultado no estúdio, mas ao vivo, soava poderosa. Destaque para as excelentes Born for War, Cursed by the Dawn e Crossfire.

Fazem shows de abertura para a lenda britânica Saxon em Fortaleza e em Curitiba. Tocam também em São Paulo, Manaus, Mossoró, Natal, Campina Grande, Belém e no interior do Ceará.

Na sequência, ainda na divulgação de “Prayers”, 2013 assinala baixas na banda. Logo no início do ano o vocalista Alex Eyras, deixa a banda depois de cinco bons anos a ela dedicados. Com seu timbre agudo, Eyras, dava o tom melódico à banda. Posteriormente, mais para o final do ano é a vez, do guitarrista Helder Jackson, que partiu por motivos profissionais.

O ano de 2014 também preparou surpresas para a banda: por motivo de direito de propriede de marca, a banda alterou a grafia do nome de Darkside para Dark Syde, trocando o “I” por “Y“. O que, entretanto, se manteve apenas durante o ano de 2015.

dark-syde_legacy-of-shadows-500x500No lado bom, 2014 também os presenteia com o lançamento de The Apocalypse Bell Part II – Legacy of Shadows, o segundo disco, que mostra a banda pronta em todos os aspectos. Pelo resultado obtido no estúdio, diria que esta seria a lineup definitiva. As composições estão mais violentas, sujas, altas e lindamente audíveis. Interessante notar que há poucos solos de guitarra, o que não pormenoriza em nada o disco. Agora com Marcelo Falcão no vocal, a banda soa mais brutal apresentando um trabalho assumidamente Thrash metal. Destaque para as músicas Legacy Of Shadows e Scape from the Doom Desert.

15151213_10205869806984130_2118424820_n-1Gravado na apresentação feita como open act para o Blind Guardian no Siara Hall, em 2015, “Darkside – Live At Siara Hall” é o último registro lançado pela banda. O disco contém apenas seis músicas que, apesar de poucas para um “Ao vivo“, atingem a finalidade pela boa produção e principalmente pela fidelidade na execução, das músicas. A parte gráfica do CD também está no capricho e, só pra constar: interessante é notar como o plano de fundo dos germânicos acabou servindo para a composição da fotografia dos cearenses. Também fizeram a abertura do show do Onslaught em janeiro deste ano (2017).

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Fragments of Madness… At the Gates of Time, o novo álbum, que vem coroar as três décadas de atividades que a banda está prestes a completar, pode muito bem simbolizar um tributo à adversidade e à persistência. O disco encontra-se inteiramente gravado e trará releituras das músicas gravadas nos anos 90, originalmente contidas nas fitas Fragments of Time e Gates to Madness. A gravação traz a participação de três bateristas, três baixistas e, nada menos do que, cinco guitarristas que ajudaram, em maior ou em menor grau, a construir no nome da banda.  A formação que gravou o disco conta com Marcelo Falcão (Voz), Tales Groo (Guitarra), Anderson Menezes (Guitarra), Kaio Castelo (Baixo) e Bosco Lacerda (Bateria).

Infelizmente, assim que as gravações terminaram, houve uma completa reformulação na banda, restando apenas o fundador, Tales Groo e o baixista Kaio Castelo que, aguardam a prensagem do novo álbum. Enquanto isso, testam novos componentes e preparam um álbum para 2018.

Nesses, quase trinta anos de atividade, a Darkside se propôs ao enfrentamento de todo tipo de adversidade. Assim como a maioria das bandas underground, batalhou pelo reconhecimento e pelo direito de se expressar como artistas de um gênero musical no qual o amor à música é posto a prova todos dias. O tempo, mais do que qualquer palavra, aqui escrita, pode melhor responder as várias questões feitas diariamente por todos aqueles que partilham desses ideais. Fazer música no Brasil é uma tarefa árdua e, justamente por isto, completar três décadas de atividade é coisa para poucos. Dessa forma, por todos os motivos citados, pode-se dizer que a banda chega à maturidade se firmando como um nome de peso, força e integridade no metal nacional.


Referências:                                Agradecimento:

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Música, Rock/Metal

Circus Maximus: nem só de black metal vive a Noruega

Circus Maximus é uma banda de metal progressivo originária de Oslo, Noruega. Seu som assemelha-se ao de bandas como A.C.TEvergreyQueensrÿcheSymphony X e Dream Theater, entre outras. Começaram como uma banda cover, mas depois de duas demos muito bem produzidas assinaram com um o selo americano especializado em heavy metal, Sensory Records, que deu suporte para o lançamentos de um disco completo.

Cover_The1stChapter-960x960O seu álbum de estreia, chamado The 1st Chapter, foi lançado em maio de 2005, mixado em diversos estúdios na Noruega e na Dinamarca pelo produtor Tommy Hansen (Helloween, Pretty Maids, Wuthering Heights). Em novembro de 2005, o membro-fundador Espen Storø decidiu deixar a banda por razões pessoais e foi substituído no início de 2006 por Lasse Finbråten (ex-membro da banda norueguesa Tritonus). Disco bastante maduro para um “primeiro álbum”, com excelentes composições e uma boa dose de aproach!

Cover_Isolate-960x960Isolate, o segundo disco, e o favorito deste que vos escreve, mostra uma banda completamente amadurecida mostrando não apenas técnica apurada, mas trazendo composições complexas e cheias de nuances. Destaque para o vocalista Michael Eriksen, que além de haver encontrado um belo timbre vocal, interpreta as canções belissimamente. De um modo geral, todos na banda são exímios instrumentistas e juntos fizeram um disco que poderá se tornar clássico, um dia.

581091_355928907803778_1467067656_n“Muito aconteceu em nossas vidas pessoais nos últimos anos”, explica o baterista Truls Haugen. “Três de nós tivemos filhos, além disso, também tivemos vários solavancos na estrada com a produção. Portanto, não foi exatamente somente alegria, mas é ótimo finalmente haver feito um grande álbum, e depois de todo esse tempo, estar pronto para libertar nosso novo monstro! Para este novo disco, a banda apresenta o melhor de dois mundos – oferecendo os momentos mais melódicos e ao mesmo tempo mais pesados ​​de seu repertório, com a classe e a maturidade que é realmente de outro mundo. “A maioria do material no novo registro foi escrito por Mats Haugen e ele levou a música a uma abordagem mais simples e acessível, mas manteve os elementos progressivos e o “núcleo” disto que é o Circus Maximus”, diz Truls Haugen. “Na verdade, somos mais melódicos e pesados ​​neste novo disco do que nunca”.

Cover_HavocO quarto álbum de estúdio mostra que o tempo tem o poder de redefinir todos os nossos referenciais, sejam eles quais forem, em função de nossos objetivos, que também estão sujeitos à mudanças. Havoc mostra a banda literalmente mais acessível e menos robusta quanto as suas marcas principais: a complexidade das composições (componente que melhor emprestava à banda características do progressivo) e o vocal (que a despeito de toda a sua capacidade de alcance, se mostra mais brando). Não que seja um disco ruim, é que parece mesmo se orientar para a abertura de público.

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“Em 6 de fevereiro de 2016, o Circus Maximus comemorou o lançamento de seu quarto álbum de estúdio, Havoc, com um show esgotado no Rockefeller em Oslo, com uma impressionante produção ao vivo que envolveu pirotecnia e uma enorme plataforma de iluminação. A banda queria fazer deste show uma das performances mais memoráveis da história do Circus Maximus e depois compartilhar essa noite com o mundo. Então, foi decidido capturar a noite inteira com várias câmeras de alta definição para um lançamento em Blu-Ray e DVD, além do tradicional CD. O resultado chama-se Havoc In Oslo.”

Como o disco Ao Vivo foi inspirado na performance ocorrida no Japão pouco antes, e como não foi disponibilizado o vídeo Havoc In Oslo no YouTube, deixo-os com o belo vídeo de Live In Japan:


Referências:

Música, Rock/Metal

Galadriel: o metal eslovaco se renovando pela morte dos próprios mitos.

232c_1Banda eslovaca fundada em julho de 1995 pelo vocalista e baixista Dodo Datel, o guitarrista Voloda Zadrapa e o baterista Victor Gieci. Originalmente, mais orientada para o doom metal, que era um estilo muito forte em meados dos anos 90. O começo foi marcado pela busca pelas pessoas certas para completar a line up. Então, houve muitas mudanças na formação.

Na segunda metade de 1996, a vocalista Sona Witch Kozakova entrou na banda. Com essa formação a banda gravou seu primeiro CD promocional em agosto de 1996. Os teclados foram registrados pelo amigo King ((Lunatic Gods) à época). Posteriormente, o guitarrista Chulo Malachovsky entrou na banda. Com sua ajuda, a banda escreveu as próximas três músicas e as gravou em janeiro de 1997.

01Naquela época, o Unknown Territory (um novo e pequeno selo britânico) ofereceu um contrato para o álbum de estréia. Assim, ambas as gravações foram completadas e, finalmente, lançadas em setembro de 1997 como um CD, “Empire Of Emptiness“. Mas no verão de 1997, mais uma baixa na banda: o principal guitarrista, Voloda Zadrapa deixou a banda e o jovem talento de guitarra Tomax Gabris tomou seu lugar.

mirror99A banda adicionou o tecladista Erik Schmer. Assim, a banda iniciou as gravações do seu novo material, concluídas em novembro de 1997. Mais duas músicas foram gravadas na primeira metadae de 1998 (já sem o tecladista Erik Schmer). Todas essas músicas foram lançadas em janeiro de 1999 como um segundo CD, “The Mirror Of Ages“, pelo mesmo selo. Os anos seguintes foram assinalados por outras mudanças na banda. Irmão de Sona J.S.K. assumiu os teclados e o guitarrista Gabriel Holenka substituiu Chulo Malachovsky.

oblivionEm 1999, a GALADRIEL escreveu e gravou todas as músicas para o seu terceiro CD “Oblivion” que foi lançado em março de 2000. O processo de gravação foi realmente complicado e a banda nunca ficou satisfeita com esse registro. De qualquer forma, foi o último registro pelo antigo selo. Na Primavera de 2001, a banda gravou um cover da canção “Bournemouth” (The Hobbit) do Blind Guardian para a compilação de tributo” “Tales from the Underground“(já sem o guitarrista Gabriel Holenka).

Galadriel - From Ashes & Dust - FrontA atmosfera na banda não era muito boa naquela época, mas o resultado dessa música ajudou a reunir os membros novamente. Novas músicas foram concluídas rapidamente e, alguns meses depois, GALADRIEL gravou seu quarto CD “From Ashes & Dust“. Podemos dizer que esse registro foi um ponto de virada para a banda. O som e os arranjos deste registro foram muito melhores do que antes. Com este disco, a banda assinou um contrato com a Metal Age Productions (selo eslovaco) que o lançou em 2002.

No final de 2002, o guitarrista base Matus Hanus entrou na banda. Mas no início de 2003 resurgiram problemas antigos e a banda chegou perto acabar. Três membros antigos deixaram a banda (Sona Witch Kozakova, J.S.K. e Dr. Victor).

Galadriel - World Under World - FrontPassada a tempestade, a banda (Dodo Datel, Tomax Gabris e Matus Hanus) compôs novas músicas e, (outra vez) no outono de 2003, gravou seu quinto álbum com muitos músicos convidados. Este CD foi chamado “World Under World” [o favorito deste que vos escreve] e foi lançado em março de 2004 pelo mesmo selo. A banda fez muitos shows com músicos convidados, mas em setembro de 2004, após 20 meses de existência caótica, o guitarrista principal Tomax Gabris deixou a banda.

O sinal dos velhos tempos (a vocalista feminina Sona Witch Kozakova) voltou à banda junto com o irmão J.S.K. (chaves). O grupo encontrou o novo baterista, Hoyas. A banda começou a fazer shows novamente em 2005 e após uma longa busca por um substituto adequado para Tomax Gabris, chegaram a Era Skkipi Skuppin

renascenceEm 2006, a banda escreveu novas músicas para um novo álbum. No início do ano de 2007 o baterista Hoyas deixou a banda. Logo, a banda entrou no estúdio para gravar o novo álbum “Renascence Of Ancient Spirit” com dois bateristas convidados (Victor Gieci, ex-membro da banda e Jan Valer Tornad). No processo de gravação, o tecladista J.S.K. Deixou a banda para que Matus Hanus gravasse a maioria das partes do teclado no registro. O novo álbum “Renascence Of Ancient Spirit” foi lançado pela Metal Age Productions em junho de 2007.

No início de 2008, Andrej Kutis entrou na banda como novo tecladista. A banda fez muitos shows com bateria pré-gravada e em fevereiro de 2009 Adam Zelenay finalmente se tornou o baterista da GALADRIEL. No final do verão, problemas com o guitarrista Skkipi Skuppin culminaram com o fim da cooperação entre ele e a banda. Este foi o momento perfeito para a volta de Tomax Gabris após cinco anos.

7queenLogo após essa mudança, a banda começou a escrever novas músicas para o próximo álbum. Mas, como sempre, as coisas não seriam tão fáceis. Após outras complicações pessoais, a banda entrou no estúdio em março de 2012. O novo álbum “The 7th Queen Enthroned” foi lançado pela Gothoom Productions em novembro de 2012 e o baterista Matej Ferianc e o guitarrista Michal Kolejak foram oficializados como membrosda banda.

14991963_10154644278388480_4910411006589114101_nEm 2015, a banda emite a última nota oficial de que tive notícia pela Web: “Caros fãs, nossa banda surgiu em 1995 e este é o ano [2015] de seu 20º aniversário. É um marco na nossa história e, portanto, será celebrado com o lançamento de um EP especial intitulado “Lost in the Ryhope Wood“, inspirado no trabalho de Robert Holdstock. O EP contém seis canções – três músicas re-gravadas de álbuns mais antigos e três novas. A gravação e mixagem de “Lost in the Ryhope Wood” acontecerá em maio e junho no Grindhouse Studio em Atenas e Pulp Studio em Bratislava. O EP será lançado em vinil através da Paøát Magazine & Productions em 1 de setembro de 2015. Durante a nossa existência, lançamos sete discos e fizemos mais de 200 shows em toda a Europa. Esse número aumentará quando a tour de aniversário [prevista] para setembro for anunciada! OBRIGADO POR O SEU APOIO PERMANENTE E LONGO !!!”

Na sequência, conforme dito acima, ocorre o lançamento do EP “Lost in the Ryhope Wood”, do qual uma faixa foi disponibilizada no YouTube:


Referências:

 

Música, Rock/Metal

Facada: brutalidade ou genialidade?

“O Facada toca grindcore desde 2003. Simples, rápido, pesado, cru, sem experimentalismos, sem frescura, sem viagens sonoras, sem hypes ou modas, sem alegria, sem cultuar ninguém, sem dar satisfação a ninguém, sem breakdowns, sem vocais limpos, sem falsa amizade nem falso discurso. Sinta-se à vontade para não gostar. Se não gostar faça o favor de não nos visitar ou ouvir nossos sons. Já viajaram por quase todo Brasil, incluídos aí: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. […]”

Com este singelo preâmbulo a banda formada por James (baixo e vocais), Dangelo (bateria), Danyel (guitarra) e Ari (guitarra), se apresenta para “a quem interessar possa”. Cantando em português, discreta e rapidamente ganhou notoriedade entre os fãs da música extrema. Da parte deste que vos escreve, de tanto ouvir falar na banda, surgiram perguntas que considero pertinentes: 1) porque o nome “Facada” está tão em evidência? 2) O que os diferencia, brutalidade ou genialidade?

Antes de (tentar) responder, entretanto, visitaremos a breve mais profícua discografia da banda que, tendo acabado de lançar um split album com os gregos do Stheno, está prestes a lançar o aguardado Nenhum Puto de Atitude (álbum de covers), e um novo full length ainda esse ano.

facada DemoEm 2005 a banda lança a demo que precede o seu primeiro álbum completo. Totalmente de acordo com a auto biografia, a demo contém dez faixas curtas e grossas executadas em pouco mais de 10 minutos de duração (10:14, pra ser exato). Com destaque para “Set Fire In The Bomb“, que serve de trilha sonora para uma estranha e engraçada história ocorrida numa passagem pelo interior da Bahia, segundo contou James aos Meninos da Podreira.

R-5451453-1394219341-7340.jpegCada disco tem sua própria dinâmica, por isso, quem diz que disco de grindcore ou de “seja lá  o que for” é tudo igual, comete o erro da generalização. Indigesto (2006) contém todos os componentes de um disco do gênero. Porém, contém também traços que se ressignificam com o tempo. Pelo menos se o considerarmos na perspectiva dos dissidentes, que dão voz ao coro contra os desarranjos sociais, à opressão e à alienação. A música aqui, é o contorno que dá forma ao conteúdo.

093426b1de20537510d95cf15e436ff1Ao ouvir O Joio (2010) as primeiras palavras que me vieram à mente foram “puta que pariu!”. (…) Agora num nível de produção mais profissional a banda se mostra mais claramente em sua proposta musical. E não é somente esporro gratuito. A [banda] Facada tem personalidade! Pelo menos é o que os anos de estrada parecem nos dizer através de mais este trabalho. O disco marca a entrada de Danyel (guitarra) no grupo e o cara já mostra a que veio. A banda parece ter assimilado influências, as mais diversas, pois tudo num liquidificador e o resultado é esta agressão sonora.

a1239883345_10Nadir (2013) veio para consolidar o trabalho realizado ao longo de dez anos. Mais apropriados de seus instrumentos e com uma postura mais amadurecida, a Facada produz um disco simples e poderoso. Nadir ou Nazir é um conceito utilizado pela banda para significar o ponto mais baixo do ser humano. Um tema pertinente numa época em que nos vemos obrigados a defender o óbvio. O disco conta com as participações de Marcelo Appezzato (Hutt), Jão (Ratos de Porão) e John “The Maniac” Leatherface (Chronic Infect).

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Em parceria com a banda grega Stheno, lançou este ano (2017) mais um petardo, o brutal “Primitive“. Ao todo são 11 faixas, sendo que, ao Stheno, coube 7 delas, enquanto que a Facada entra 4 vezes. Musicalmente não há muito o que discutir: pancadaria distribuída à torto e à direito. As duas bandas, oriundas de culturas bem distintas guardam similaridades, o que conferiu ao trabalho, bastante linearidade. O disco está sendo lançado por quatro selos ao mesmo tempo.

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O título Nenhum Puto de Atitude (2017) de cara  soa como um escárnio pois, no apanhado de faixas que ouvi no Youtube, pode-se ver que o que não falta aqui é atitude. Tocando covers de nomes como Bad Brains, Titãs, Napalm Death, Sarcófago, Misfits, Dorsal, entre outros, o disco já é um dos álbuns mais esperados por este que vos escreve. Na Europa, o álbum está saindo como edição limitada em 500 cópias. Destaque para a arte de capa feita por Vitor Willemann parafraseando o Secos e Molhados em seu disco de estréia.

Agora, com uma visão mais ou menos panorâmica sobre a banda e o que ela representa podemos retomar a argumentação e tentar responder as questões acima propostas:

  1. Não há como negar, o nome Facada hoje, é comentado nos corredores, nos becos e nas ruas da periferia do rock, – diga-se de passagem, – com ecos no exterior. Muito provavelmente pela postura dos caras, conforme o modo pelo qual eles próprios se definem enquanto banda. Principalmente, porque parece haver coerência no discurso por eles apregoado.
  2. Não sei se há, de fato, algo de genial na música da banda. Mas de brutal, sem dúvida, há! A mesma brutalidade que consagrou nomes como Napalm Death, e Nasum, entre outros. O fato é que a simplicidade da sua música e a sua despretensão como projeto musical pode significar, sim, um traço de genialidade. Talvez haja realmente algo de complexo em se fazer o simples. E isto pode simbolizar mais do que adesão a um estilo. Talvez, simbolize uma visão de mundo! O que certamente deve dar um nó na cabeça dos “trues”.

Porém, essa questão dá muito pano pra manga e o que nos interessa aqui é a música. Portanto, todas as tentativas de resposta que se formularem em torno do assunto serão bem-vindas. Deixo-os com a excelente versão de Igreja, dos Titãs. Forte abraço.


Referências:

Música, Rock/Metal

Encéfalo – DeaThrone, o passo seguinte na evolução!

A banda Encéfalo foi formada em 2002 sem muitas pretensões. Fazendo covers de grandes nomes do thrash metal mundial, após várias apresentações e, devido ao natural amadurecimento dos músicos, resolveu elaborar suas próprias composições.

Tendo como maiores influências, nomes como Sepultura, Kreator, Slayer, Destruction, entre outros, o grupo apresenta como diferencial, um repertório no qual mescla as características do puro thrash metal oitentista como elementos do heavy e do death metal tradicionais. O que denota a construção da sua personalidade.

001Em 2008, lancou seu primeiro registro fonográfico, a demo entitulada “Destruction”. Contendo cinco músicas, a faixa-título, “Dead Creation“, havendo sido bastante elogiada, acanbou se tornando o destaque da estreia. Sendo que que, para os apreciadores do estilo, o trabalho como um todo é bastante elogiável. Como decorrência, a banda realizou muitas apresentações  na promoção deste que é o seu filho primogênito.

Na sequência, o grupo começou a preparação de seu primeiro álbum completo, que culminou com o início das gravações de ‘Slave Of Pain‘ no final do ano de 2011.

002Lançado no início de 2012, Slave of Pain foi muito bem recebido pela mídia especializada e elevou o grupo de “banda revelação” para um nível mais profissional, abrindo as portas para uma nova realidade no contexto da música pesada brasileira. O disco é aclamado pelo público e apontado pela mídia especializada como um dos principais lançamentos do ano. Imediatamente, o grupo embarcou numa turnê, num giro que atravessou o país, percorrendo Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil.

Em 2014 a banda faz sua primeira turnê europeia passando pelos países Alemanha, República Tcheca, Polônia, Holanda, Bélgica, França, Espanha e Portugal. Ao todo foram 21 apresentações num período de aproximadamente 30 dias.

No começo de 2015 os fãs foram pegos de surpresam quando o Encéfalo anunciou o desligamento de um de seus fundadores, o vocalista Alex Maramaldo. A banda seguiu como um trio.

Ainda em 2015, a banda, seguindo o direcionamento para o qual a sua música já apontava, decide trocar de logomarca. Elaborada por Illy Domingos, a nova arte é, agora,  assumidamente death metal.

003Die To Kill é o segundo disco lançado pelo grupo. O trabalho, que ainda conta com Alex no vocal, foi lançado em meados do ano de 2015 e mais uma vez colocou o Encéfalo entre os destaques nacionais do ano. Aqui, é notória a migração de estilo por parte da banda. Do thrash mais “oitentista” para o death metal mais moderno no qual se nota maior entrosamento entre os músicos. Como resultando as guitarras estão trampadas, o baixo mais presente e a bateria muito mais visceral. Destaque também para as vocalizações, muito mais brutais e sombrias.

Na sequência do lançamento do segundo disco, segue-se novo giro por várias cidades do país. De lá para cá, a banda tem mantido um ritmo intenso na divulgação da sua música: participou de diversas coletâneas, tocou ao lado de grandes nomes do metal mundial como Testament, Cannibal Corpse e Sinister, Belphegor, dentre outras.

19748506_1394625900620878_6261864082752560615_n2Atualmente com Lailton Sousa na guitarra, Rodrigo Falconieri na bateria e Luiz Henrique acumulando as funções de baixista e de vocalista, a banda se prepara para o seu terceiro álbum. DeaThrone é o primeiro disco da formação como um trio e assinala o passo seguinte na evolução da banda, reforçando as novas visões de mundo e revelando um maior aprofundamento na música extrema. O lançamento está previsto para o segundo semestre de de 2017.


Referências:

 

Música, Rock/Metal

dica# Jornal Tribuna do Ceará abre espaço para o Rock!

O Jornal Tribuna do Ceará, através do espaço dedicado aos blogs, abre uma importante brecha para o rock/metal na cidade de Fortaleza/CE. Trata-se do blog Meus 300 Discos produzido por Sidney Alencar que,  juntamente com Cristiano Machado e este que vos escreve, toca o “famigerado” Buteco do Rock Podcast. A proposta do blog é resenhar 300 discos no ano de 2017. Mais que uma proposta, um desafio! O ano já entrou na sua segunda metade e, muito há por se ouvir e resenhar. Será que o M300D dará conta do desafio?  Acompanhe este incrível “desafio do rock” no Jornal Tribuna do Ceará, comentando, criticando e sugerindo mas, acima de tudo, valorizando!

Forte abraço!

Música, Rock/Metal

resenha# Dorsal Atlântica – Uma história em quadrinhos

Conforme dito pelo autor, a história em quadrinhos da Dorsal, não pretende ser uma extensão do livro Guerrilha, publicado anteriormente. De fato não é! A história aqui contada é relatada de uma perspectiva inusitada na qual a única ordem predominante parece ser a cronológica. Mesmo assim, sem apresentar uma rigidez impositiva, do tipo que retira a mágica da de arte. Retrata não apenas a história real de uma banda, mas antes, a história de uma banda real.

Narrada em terceira pessoa, embora possa o leitor absorver muitas passagens do ponto de vista pessoal do autor, a obra revela um quadro cuja paisagem remete a cenários áridos elaborados com riquezas de nuances que espelham tons ora intensos, ora desbotados. Desmistificando os bastidores do cotidiano de quem escolhe caminhar pelas veredas da arte e do underground.

SAMSUNG CAMERA PICTURESBrasil, 1964. Golpe militar e instalação do regime que tiraria direitos e liberdades básicas dos cidadãos. Se para nós, as coisas parecem difíceis nos dias de hoje, imagina nos anos seguintes a tomada de poder pelos militares. Um cenário tóxico no qual o controle exacerbado sobre a vida das pessoas comuns era normal. No rádio, música estrangeira para abafar o grito dos que ousavam questionar.

001Os primeiros anos da década de 70, assinalam descobertas importantes. Não apenas a música importada da América, mas os movimentos genuinamente brasileiros despertaram a curiosidade dos irmãos Lopes para o que viriam a ser no futuro. O rock delimitaria alí, os primeiros contornos na vida dos irmãos.

 

SAMSUNG CAMERA PICTURESJá a segunda metade da década, apresentou os garotos ao Punk em sua forma mais essencial. Grupos como Sex Pistols, Ramones, The Clash, Television, The Jam faziam a alegria dos manos “numa época em que quase nenhuma banda gringa tocava no Brasil”. Momento da descoberta do “faça você mesmo” e a vontade de participar da cena contribuindo com algo relevante. Tocar um instrumento… ter o próprio fanzine, por exemplo.

SAMSUNG CAMERA PICTURESA década seguinte, os “românticos” anos 80, marca o início da abertura político-econômica. Mas o país, mergulhado na recessão, respira por aparelhos. Os militares, todavia, não largariam o osso de forma civilizada, e partem para o terror contra todos os que representassem algum tipo de ameaça. Nesse sentido, montar uma banda para denunciar a fome, a repressão e a alienação era a mais legítima forma de rebeldia.

 

002Assim, a batalha do metal nacional contra os abusos da autoridade instituída começa a ser travada muito cedo e a música dos Irmãos Lopes vai adquirindo contornos de contestação, enveredando pelo caminho mais brutal. É nesse contexto que, em 1983, nascia a Banda Dorsal Atlântica.

003Um fato mudaria para sempre as cenas Metal e Punk no brasil: a banda Desordeiros promoveu juntamente com a Dorsal Atlântica, o primeiro show no continente envolvendo punks e bangers. Um marco para a união das cenas, que por suas “ideologias” próprias, eram segregadas.

0013De Antes do Fim (1986) à Straight (1997) a banda sempre se posicionou de forma contundente quanto às mazelas sociais, à alienação e contra os abusos do poder. Contudo, a Dorsal produziu aquilo que se pode chamar de “A trinca de ouro” do metal nacional: os discos Searching For The Light (1989), Musical Guide From Stellium (1992) e Alea Jacta Est (1994) contam uma história de três partes. História esta, pouco sabida em teoria. Antes, porém, vivida por cada um de nós brasileiros no ceio da família, na escola, no trabalho, nas ruas e nos bares, no teatro e nas artes de uma forma geral. A história de uma país e de um povo que desconhece sua força e que dobra os joelhos diante da autoridade. Sendo contra isto, precisamente, que a banda – personificada na figura do seu Lider – , luta.

Doze anos “depois do fim”, a luta continua com os discos 2012 ((2012) viabilizado por uma bem sucedida campanha de crowdfunding))  e Imperium (2014), colossais em forma e conteúdo.

0014A história em quadrinhos da Dorsal Atlântica, termina. Mas a história real da banda continua sendo escrita com suor e sangue. O mais novo projeto que, inclusive, está em pleno processo de realização, é o disco Canudos, que conta mais um recorte da conturbada história do país chamado Brasil. Fica assim, a promessa de algo novo, que está por vir. Abra os seus olhos!


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