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A palavra [13]: Realidade, consciência e subjetividade

A maneira como a realidade é percebida conta em muito para a formação disto que chamamos de significação. Por isso achamos conveniente abrir espaço para abordá-la, levando-se em conta sua aplicação como pano de fundo para toda a nossa argumentação. O segundo Wittgenstein pretende desvincular da concepção tradicional de realidade toda a conotação metafísica que esta adquiriu com o tempo, pelo uso que dela foi feito. Realidade, em sua compreensão, é algo que se constrói cotidianamente, nas relações que os homens formam entre si. Wittgenstein não define com todos os termos o que seja realidade, mas oferece contextos que nos levam a induzi-la a partir de uma noção que ganha corpo pela análise dos contextos enfatizados em todo corpo da obra Investigações Filosóficas.

Wittgenstein busca ajustar o sentido de realidade às práticas linguísticas efetivadas. Melhor explicando: assim como deseja que o fenômeno linguístico seja concebido pela imanência de sua prática, deseja colocar o entendimento de realidade na ordem das coisas imanentes. Uma coisa existe efetivamente quando dela se pode predicar algo; quando se pode predicar algo de alguma coisa, essa coisa é tornada um fato. Considerando fato como a relação que existe entre o que ocorre e o que disso se predica, a realidade vem a ser, portanto, a totalidade dos fatos. Estabelecendo essa conexão como uma categoria de seu pensamento, Wittgenstein pretende, justamente, salientar o caráter relacional no qual baseia sua apreensão de realidade.

A consequência dessa concepção de realidade para o fenômeno da linguagem se reflete de forma impactante no processo cognoscitivo-linguístico, visto que implica também uma nova compreensão de consciência. Também desvinculada de concepções metafísicas, essa nova consciência é forjada numa espécie de intersubjetividade (Wittgenstein não formula propriamente uma teoria a esse respeito, o que impede uma argumentação mais aprofundada). É concebida num plano em que as subjetividades fiquem postas em relação direta, de modo a eliminar a noção de uma linguagem subjetivista e individualista.

“Individualista porque se abstrai da função comunicativa e interativa da linguagem. Subjetivista porque considera as convenções e regras linguísticas como dados imediatos da intuição do sujeito falante, e não como resultado de um processo de socialização.”[1]

Isso nos leva a concluir que, se o fenômeno da linguagem é algo construído em comunidade – como, de fato, é – não poderia haver linguagem baseada numa consciência dessa espécie. Observamos que, para que essa linha de raciocínio tenha efeito, é preciso compreender essa noção de subjetivismo como um mal-entendido do pensamento tradicional, que considera as convenções que se dão em torno do fenômeno linguístico como elementos da subjetividade de quem comunica algo e não como fruto do processo de socialização do homem. “Como é possível nessa perspectiva a comunicação humana? Como é possível a linguagem como um fenômeno social? Que sentido tem descrever fenômenos psíquicos individuais, se os outros não têm acesso a essa dimensão?”[2]

Tanto não é possível que haja linguagem sem consciência como, também, não há consciência sem linguagem. Ciente disso, Wittgenstein pretende eliminar a concepção de uma linguagem mediada por fenômenos objetivos, de modo a permitir que o fenômeno linguístico possa fazer sentido dentro da noção de uma linguagem construída como resultado de processos de interações sociais. Busca identificar soluções para operar a transformação dos elementos subjetivos em fatos, de maneira que a passagem entre o simbólico e o concreto possa ser resolvida sem o apelo ontológico da metafísica. Já neste ponto da argumentação, cremos que a metafísica pode, por fim, ser substituída pela subjetividade que encontra, na consciência wittgensteiniana, o amparo para a realização dessa transição. Sendo a subjetividade a faculdade da interpretação, é por meio da intersubjetividade que se faz possível a relação entre uma linguagem imanente (como pretende Wittgenstein) e as coisas que, com ela, predicamos. Resumindo, diz Oliveira:

“Em suma, para Wittgenstein, as expressões lingüísticas têm sentido porque há hábitos determinados de manejar com elas, que são intersubjetivamente válidos. É precisamente o hábito que sanciona sua significação determinada e constitui o jogo de linguagem em questão, que é uma forma específica da atividade humana.”[3]


[1]jOLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 125.

[2] Ibid., p. 134.

[3]jOLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 141.

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A palavra [12]: ESTÉTICA E FISIOLOGIA DO FENÔMENO DA LINGUAGEM

Neste capítulo, buscaremos, de acordo com a proposta deste estudo, responder, juntamente com Wittgenstein, à pergunta em função da qual este trabalho propriamente existe. Neste momento da exposição, daremos ênfase ao argumento do filósofo, à forma como seu raciocínio foi dirigido e à finalidade para a qual sua tese se destina. Sem que, de antemão, seja estabelecida uma ordem determinada para o cumprimento desta meta, retomaremos argumentos abordados nos capítulos anteriores, bem como agregaremos outros novos conforme haja exigência. Nossos esforços se concentrarão no sentido de realizar, a partir da apropriação das categorias fundamentais do pensamento de Wittgenstein, uma argumentação coesa que atenda amplamente as questões filosóficas propostas para esta pesquisa. Utilizaremo-nos de argumentação própria, procurando, porém, encontrar assentimento do autor de forma a poder demonstrar como sua teoria é tomada na contemporaneidade e as consequências dela para o pensamento filosófico como um todo. Finalmente, buscaremos realizar esse trabalho traduzindo os componentes de sua forma implícita para uma forma mais clara, segundo o entendimento que dela fazemos e de acordo com a orientação encontrada nas diversas fontes de pesquisa.


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A palavra [11]: Wittgenstein: o último representante da tradição e o primeiro da contemporaneidade

Wittgenstein absorveu influências das mais variadas, como é possível notar na leitura de suas obras. Teve influências de diversos autores, entre os quais destacamos Boltzmann, Hertz, Schopenhauer, Frege, Russell, Kraus, loos, Weininger, Spengler, Sraffa e Moore[1]. Alguns desses, contemporâneos do filósofo em estudo, não receberam maior menção nesta pesquisa, em virtude de suas obras estarem mais diretamente relacionadas com o Tractatus. Já Platão e Aristóteles, que não têm uma relação direta com nosso filósofo, foram escolhidos para tanto por tratarem, de forma mais específica, dos fundamentos da linguagem e dá lógica. Nesse sentido, podemos situá-los como influências indispensáveis para a compreensão da segunda fase de Wittgenstein.

Situado entre duas significativas vertentes filosóficas, o Positivismo Lógico, do Círculo de Viena, e a Escola da Filosofia da Linguagem, do Grupo de Oxford, Wittgenstein influenciou bastante o pensamento de sua época. A escola do Círculo de Viena absorveu várias das ideias do filósofo em sua primeira fase, adotando, entre outras, a teoria do princípio da verificabilidade.[2] Necessário é dizer que nem tudo do trabalho de Wittgenstein foi adotado pelas escolas para as quais serviu de inspiração, como é o caso, por exemplo, da teoria da figuração, rejeitada pela escola. Mesmo assim, alguns de seus mais fiéis seguidores o reverenciam como sendo, ele, o pai do Positivismo Lógico. Fontes externas a nossa pesquisa indicam que isso não é verdade, o que, entretanto, é desnecessário demonstrar neste momento da argumentação. O Grupo de Oxford, por sua vez, adotou em muito a filosofia linguística de Wittgenstein. Também nesse caso, os seguidores mais assíduos chegaram a considerá-lo como o pai da Filosofia Linguística. Conforme indicações, Wittgenstein não foi, nem teve a pretensão de ser, o precursor dessa vertente filosófica; G.E. Moore seria o nome mais provável.[3]

A obra wittgensteiniana exerceu e ainda exerce forte influência no pensamento filosófico contemporâneo. A prova disso é que o filósofo traz, em seus ombros, o peso de haver sido o último representante da tradição e o primeiro da contemporaneidade. Responsabilidade que chamou para si, ao se rebelar contra o modelo o qual ele ajudou a construir.[4] Dessa forma, contribuiu em muito para a expansão do pensamento filosófico ocidental, afastando ao máximo as fronteiras em cada extremo de sua dimensão. A perspectiva do segundo Wittgenstein elevou as possibilidades do conhecimento humano ao concebê-lo como resultado de um processo linguístico construído através das ações do homem. Diria mesmo que, em Wittgenstein, todo o pensamento filosófico, todo o trabalho intelectual que o homem produziu no transcorrer de sua existência é, na verdade, uma grande conversação que gira em torno da linguagem.


[1] GLOCK, Hans-Johann, op. cit., p. 21-23.

[2] WITTGENSTEIN, op. cit., p. 16.

[3] Ibid., p. 17.

[4] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de, op. cit., p. 117.

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A palavra [10]: dos fundamentos platônico-aristotélicos para os jogos de linguagem

Platão, um dos nomes mais expressivos da tradição, tem o mérito de haver sido o primeiro a tratar da linguagem como objeto de investigação filosófica. A obra Crátilo doou à sua investigação uma pesada carga metafísica. Os conceitos nela contidos baseiam-se na dualidade mundo sensível-mundo inteligível, o que, aliás, é a grande descoberta desse pensador. Ancorou sua investigação na busca pelo significado da palavra, o que equivale à busca pela própria essência das coisas, o qual seria uma causa que subsistisse em relação à própria palavra. Para Platão, as palavras eram criadas por um sábio, o Nomoteta, que, como profundo conhecedor das essências, atribuía com perfeição o significado correspondente à ideia da qual a palavra era meio de expressão.

O que levou Platão a realizar tal empreendimento em busca da desmistificação dos fenômenos linguísticos foi a tomada de posição em relação à retórica do discurso sofista, que considerava carente de legitimação. Para ele, os sofistas acreditavam na instituição da linguagem como fruto de convenção entre os homens, todavia sem haver demonstrado o argumento de forma prática. Platão exerce uma crítica do discurso sofista; não rompe, porém, com a dialética entre eles existente. Essa crítica consistia em uma profunda análise da essência da palavra, na procura pelo elemento imutável a partir do qual seria possível conceber a palavra em um sentido único, isolado das circunstâncias e de qualquer contexto. “Platão acreditava que o único meio era constituir um discurso que contivesse ele próprio seu critério de validade”[1], de modo a enfrentar a manipulação dos conceitos através de seus possíveis significados.

Já Aristóteles não trata da linguagem diretamente; trata da lógica do discurso, da estrutura, da forma que todo enunciado deve ter para expressar e demonstrar algo. Ao procurar uma sistematização do conhecimento, Aristóteles buscou, na verdade, uma maneira através da qual pudesse identificar as estruturas de cada saber específico com uma estrutura maior, ou seja, com uma superestrutura que comportasse todas as outras, porquanto fosse capaz de dar conta da realidade em sua totalidade. A forma encontrada foi, portanto, a instituição de um critério com o qual pudesse validar a identidade entre essas estruturas, isto é, a lógica (então designada, pelo filósofo, de analítica). Aristóteles substituiu a transcendência platônica pelo empirismo e este é uma característica sua. Isso implica um pragmatismo que necessita da observação do real para se concretizar e, com base nessa observação, o filósofo ora enfatizado elaborou uma teoria que pretende promover a compreensão dos enunciados a partir de sua construção gramatical, entendendo esta como condição para uma compreensão da semântica.

Com base nos tópicos acima desenvolvidos, consideramos que três argumentos se mostram relevantes para o desenvolvimento deste capítulo. Primeiro: a essência, que, para Platão, é condição de possibilidade de existência do significado, torna-se, em Aristóteles, substância, que indica a unidade entre o signo e seu significado. Ambas as vertentes são, para o segundo Wittgenstein, fruto do essencialismo do pensamento tradicional que ele próprio se lança ao combate, motivo pelo qual trata de descartá-los. Segundo: do mesmo modo, despreza a dualidade platônica entre o mundo sensível e o mundo inteligível[2], que Aristóteles pretendeu substituir por uma identificação conceitual entre a estrutura do mundo e a do pensamento[3] em razão de que, em sua concepção, não há distinção de mundos como imaginava Platão, e de acreditar, diferentemente de Aristóteles, que a estrutura do mundo nos é dada imediatamente com a da linguagem[4]. Terceiro: tomando a palavra, que, para Platão, é o elemento em função do qual os elementos linguísticos se articulam para construir o significado[5] e a lógica, que, para Aristóteles, é o mecanismo de validação da relação entre palavra e significado[6], Wittgenstein enfatiza a subjetividade humana[7] como mediadora da relação entre palavra e lógica, de modo a poder construir um significado, conceitualmente falando, mais próximo da realidade em sua fluidez.


[1] GARCÍA-ROZA, Luiz Alfredo. Palavra e Verdade na Filosofia Antiga e na Psicanálise. 4. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 61.

[2] REALE, Giovanni. História da filosofia antiga. São Paulo: Loyola, 1994. (Série História da Filosofia). p. 203.

[3] Ibid., p. 468-470.

[4] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de, op. cit., p. 127-128.

[5] GARCÍA-ROZA, Luiz Alfredo, op. cit., p. 58.

[6] REALE, Giovanni, op. cit., p. 456-458.

[7] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de, op. cit., p. 141.

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A palavra [9]: Reviravolta metodológico-pragmática e rigor intelectual

Iniciada em 1936, a obra Investigações Filosóficas só veio a ser terminada no ano de 1950. É composta de duas partes distintas, uma das quais foi terminada em 1946 e a outra, bem pouco antes da morte do autor, conforme dito acima. A distinção entre as duas partes se refere à cuidadosa ordenação paragrafal da primeira e à ordem aleatória da segunda. Esta também está dividida em treze partes, ordenadas, como o próprio Wittgenstein disse, “[…] às vezes como longos encadeamentos sobre o mesmo objeto, às vezes saltando em rápida alternância de um domínio para outro […]”[1].

Os escritos nela contidos são considerados uma obra-prima da literatura alemã. É preciso observar que não representa uma doutrina específica, nem tem a pretensão de sê-lo. Investigações Filosóficas traz, conforme a indicação de nossas fontes de pesquisa, a prova de uma radical oposição ao trabalho wittgensteiniano anterior, o Tractatus, e, consequentemente, a toda a tradição filosófica da qual o filósofo foi o último representante. Essa obra tem caráter indireto e assistemático, o que revela o desprezo de Wittgenstein pelas antigas concepções filosóficas. Rejeita as demonstrações pelo cálculo lógico e enfatiza as suposições em que fundamenta suas categorias[2].

Contemporâneo de Russel e de Moore, pode-se dizer que Wittgenstein adota um estilo de escrita um pouco menos peculiar que o tradicional, ou seja, adota um estilo extremamente simples, que pode ser, contudo, considerado eficaz. Nega-se ao cometimento de certos abusos, esboçando um estilo próprio e, ao mesmo tempo, coletivo. Tinha um cuidado extremo com a forma com a qual escrevia e posicionava seus escritos, pois tinha o objetivo de não ser mal-entendido e queria que sua escrita transmitisse exatamente aquilo que pretendia com seu pensamento. Era, por assim dizer, um pragmático que, de certa forma, fora vítima de seu próprio rigor intelectual. Acreditava que por meio da compreensão da fisiologia de nossa linguagem (e de seu uso reto) é que seríamos capazes de atingir um esclarecimento real, baseados no qual poderíamos acabar com o mal-entendido que estava na origem do problema filosófico.[3] Isso se reflete de forma muito clara na escrita wittgensteiniana. Ao editá-la, o filósofo buscava atingir uma organização que pudesse reduzir ao máximo a ocorrência de mal-entendidos, chegando mesmo a uma quase perfeição. Diante dessas considerações, podemos afirmar que o estilo de Wittgenstein não está claramente delimitado dentro disto que chamamos de convencional e que seria melhor definido como algo entre diversos estilos. Wittgenstein admite que:

“Após várias tentativas fracassadas para condensar meus resultados num todo assim concebido, compreendi que nunca conseguiria isso, e que as melhores coisas que poderia escrever permaneciam sempre anotações filosóficas; que meus pensamentos logo se paralisavam, quando tentava, contra sua tendência natural, forçá-los em uma direção.”[4]


[1] Wittgenstein. São Paulo: Nova Cultural, 1989. (Coleção Os Pensadores). p. 7.

[2] GLOCK, Hans-Johann. Dicionário Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 34.

[3] MACHADO, Alexandre Noronha. As Investigações Filosóficas de Wittgenstein: Estilo e Método. In: Colóquio Prazer do Texto, 2., 2006, Salvador. Anais eletrônicos…Salvador: UFBA, 2006. Disponível em: http://alexandremachado.50webs.com/pesquisa/comunicacoes/investigacoes.pdf>. Acesso em: 21 set. 2008.

[4] Wittgenstein, op. cit., p. 7.

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A palavra [8]: A REVIRAVOLTA METODOLÓGICO-PRAGMÁTICA

Neste capítulo, trataremos de explicar a obra em estudo através de dados históricos e de categorias fundamentais do pensamento wittgensteiniano. Pô-lo-emos em relação com as perspectivas de Platão e de Aristóteles, por julgar ser esta a forma mais apropriada de confirmar sua nova vertente do ponto de vista segundo o qual seus predecessores abordaram respectivamente a linguagem e a lógica. Esclarecemos que optamos por trabalhar com os autores supramencionados por acreditarmos que atendem melhor as finalidades desta pesquisa, sendo que, neste momento da argumentação, daremos ênfase ao estudo das formas de vida e dos jogos de linguagem, considerando-os como categorias sem as quais seria impossível cumprir mais esta etapa de nosso trabalho. No transcorrer deste estudo, identificaremos elementos comuns tanto à filosofia de Platão como à de Aristóteles, encontrando em neste último maior amparo para o desenvolvimento de todo o conjunto da obra de Wittgenstein. Veremos que, das categorias originalmente ideadas, umas foram imprescindíveis para que Wittgenstein chegasse à sua teoria do Tractatus, outras, para que viesse a superá-la em suas Investigações Filosóficas.


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A palavra [7]: O segundo Wittgenstein – A linguagem como condição de possibilidade do conhecimento humano

Entramos na segunda fase de Wittgenstein. O itinerário por nós percorrido até aqui é de fundamental importância para que possamos compreendê-la, pois é contrapondo-se suas duas fases que se torna possível chegar a um entendimento acerca das suas Investigações. Nesta fase, Wittgenstein assume uma perspectiva de frontal oposição em relação à tradição, que tem sua última expressão justamente com o Tractatus Logico-Philosophicus, sua obra anterior. O cerne de seu pensamento permanece o mesmo; o que muda, entretanto, é a perspectiva.

“[…] Wittgenstein desenvolve seu pensamento na segunda fase como uma crítica radical à tradição filosófica ocidental da linguagem, cuja expressão última havia sido precisamente o Tractatus. Em suma, sua obra da segunda fase encontra-se em fundamental oposição com a da primeira, mesmo que o problema central permaneça o mesmo.”[1]

Wittgenstein passa por mudanças profundas que o levam às Investigações Filosóficas, esta que é sua obra de maturidade. Não acredita mais ser possível a existência de uma linguagem através da qual se pudesse exprimir a realidade de uma forma lógica e absoluta. Descobriu que a linguagem, em sua prática cotidiana, manifesta-se cheia de imprecisões; então, viu-se constrangido a repensar seu próprio pensamento, o que teve como consequência a refutação de si próprio de maneira radical.

Nessa fase, Wittgenstein pretende acabar com a concepção individualista da consciência e, consequentemente, com o dualismo epstemológico-antropológico da tradição ocidental. O homem, pensado como consciência individual, é pelo filósofo em pauta posto num plano secundário, pois este compreende que, no processo linguístico, a intersubjetividade é condição de possibilidade de realização da própria linguagem; a busca por um elemento que forneça significação às palavras encontra repouso no fato de o filósofo haver vislumbrado que é o uso da palavra, no contexto em que é empregada, que determina sua significação. A internalização desse sentido de uso da palavra é, para Wittgenstein, a ponte entre as diversas subjetividades.

‘Ele vai situar o homem e seu conhecimento no processo de interação social, o que vai levar, posteriormente, não só à consideração da relação entre conhecimento e ação, linguagem e praxis humana, como também à consideração explícita do papel da comunidade humana na constituição do conhecimento e da linguagem humana […]”[2]

Wittgenstein critica veementemente o essencialismo da tradição filosófica que ajudou a forjar. Para ele, não é mais admissível que dada forma de linguagem seja absolutizada como paradigma sobre todas as outras. Essa seria a causa de uma ilusão metafísica que induz ao erro de se crer num significado próprio e específico para cada palavra. Como vimos acima, o significado das palavras se dá por seu uso, de modo que pode variar conforme as circunstâncias. “Para o segundo Wittgenstein, tal ideal não passa de um mito filosófico. Um ideal de exatidão completamente desligado das situações concretas do uso da linguagem carece de qualquer sentido.”[3]

O filósofo propõe, assim, uma espécie de abandono de todo o aparato lógico-formal ideado pelo próprio homem, o que equivale a conceber a linguagem humana de forma distinta da até então realizada. A linguagem, enquanto exigência a ser satisfeita para a construção do conhecimento humano, deve ser tratada sob uma perspectiva mais ampla e isso significa considerar sua forma e seus aspectos de um modo geral, não apenas como faziam os gregos com suas inclinações teleológicas, que reduziam a totalidade das coisas àquilo a que elas supostamente tendiam, ou seja, para sua finalidade. Conforme Oliveira: “A teoria objetivista da linguagem tem, pois, caráter reducionista, uma vez que reduz todas as funções da linguagem a uma única.”[4]


[1]jOLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 117.

[2]jOLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 132.

[3] Ibid., p. 131.

[4] Ibid., p. 127.

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