Reflexão

reflexão# Doc. “Trabalho precário produção de luxo”

O documentário ilustra a dinâmica do trabalho inserida nas facções de roupa na cidade de  Fortaleza/CE. Essa atividade é executada normalmente por mulheres, que trabalham em casa, e o custo dessa mão-de-obra possui um preço módico. A peça produzida na facção é comercializadas por refinadas lojas comerciais por um valor superior ao que é pago para a faccionista.

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Reflexão

Quem é porco e quem é homem: A Revolução dos Bichos e seus 72 anos de atualidade!

Num momento em que se questiona a legitimidade das lideranças e suas condutas diante de um cenário de corrupção e de posturas que vão além da fronteira do sinismo, é necessário clarividência para processar a enxurrada de informações que nos chega diariamente de forma tão parcial e tão “sem isenção”. Contexto no qual a leitura de uma obra como A Revolução dos Bichos, se faz obrigatória.

Uma das primeiras edições do livro no Brasil e a mais recente“Se hoje há congressos onde já não se sabe mais quem é oposição e quem é situação, no clássico livro de George Orwell, não se pode mais distinguir homens de porcos, e oprimidos acabam virando opressores. Para o professor de Letras da Unisinos, Claudio Zanini, a obra faz refletir o atual momento político brasileiro, onde “as afiliações partidárias não são tão rígidas e ocorrem conforme adaptação de interesses”.

A história se passa em uma granja onde os animais estão cansados da exploração do dono, o Sr. Jones. Estimulados pelo discurso de Porco Major, os animais fazem uma revolução e expulsam o Sr. Jones. Os suínos, considerados os animais mais inteligentes, passam a liderar a granja e disseminar a ideia de que todos os animais são iguais, mas “uns são mais iguais que outros”.

Depois de disputar o poder com outro suíno, o Porco Napoleão acaba liderando a granja de forma ditatorial. Os outros animais passam a trabalhar muito e têm a comida racionada. Por sua vez, os porcos levam uma vida confortável e abastada. Assim, vai se concretizando a chamada República dos Bichos.

Contudo, alguns animais começam a perceber que a vida estava pior do que antes da revolução, passam a questionar o novo sistema e, por isso, acabam sendo mortos. Com o tempo, os animais que viveram a época do Sr. Jones morrem, e os ideais da revolução se perdem. O livro acaba com os porcos andando sobre duas patas e se aliando definitivamente aos humanos. “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco”, encerra a fábula.

Por mais que uma história permita muitas interpretações (como ler hoje o discurso do Porco Major a respeito do domínio humano sobre os animais e não pensar na onda atual de veganismo?), o contexto da época em que viveu o autor e a sua biografia dão pistas sobre as reflexões que ele quis fomentar. A obra é vista como uma crítica severa ao stalinismo ou uma metáfora sobre o fracasso dos sistemas políticos.

Vida e obra
Nascido na Índia em 1903, Eric Arthur Blair, sob o pseudônimo de George Orwell, foi um jornalista e escritor conhecido pelo seu envolvimento com a política e sua crítica aos sistemas opressores. Além de A Revolução dos Bichos, outras obras famosas de Orwell são: 1884 e Dias na Birmânia. O autor morreu em 1950, na Inglaterra, vítima de uma tuberculose.

Para a maioria dos críticos, A Revolução dos Bichos é uma sátira à política de Josef Stalin, líder da União Soviética, que teria contrariado os princípios da Revolução Russa de 1917.

O professor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense Bernardo Kocher lembra que Orwell era militante socialista, filiado ao Partido Trabalhista Independente, e acredita que a obra marca a aproximação de Orwell com a direita da época. “No final da Segunda Guerra Mundial , a democracia foi sedutora para muitos escritores e intelectuais. George Orwell foi um deles”, afirma Kocher. Ele acredita que a obra serviu para desconstruir a ideia de comunismo e o que foi a Revolução Soviética.

O professor de Letras da Unisinos, Claudio Zanini, explica que o impacto do lançamento da obra foi grande. Tanto que George Orwell demorou para conseguir publicar. “A crítica ao stalinismo é muito forte, mas aparece de maneira disfarçada. Ele se protegeu muito com a fábula”, afirma Zanini.

Na metáfora, o velho Porco Major representaria o pensador alemão Karl Marx, pelos seus ideais de igualdade e insatisfação com a exploração imposta. O Porco Napoleão seria Stalin, ditador que traiu os princípios da revolução. O Sr. Jones, dono da granja, seria uma alusão aos czares e a Alexander Keresnky, que foram derrubados pelos revolucionários russos.

E hoje?
A pedagoga e professora da faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto, Elaine Assolini, afirma que o livro é de extrema importância para pensar sobre o funcionamento de diversos tipos de governo, principalmente o autoritário. “A obra transcende o contexto do regime stalinista. A política continua sendo um espaço marcado pela persuasão e manipulação”, explica Elaine. Outros temas como corrupção, vaidade e sonho de poder também podem ser pensados a partir do clássico.

Kocher acredita que o comunismo é uma realidade fantasma que ainda aparece em uma guerra ideológica contemporânea e que o livro pode ser usado “para derrubar os argumentos de quem defende o comunismo”.

Se “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, como já disse o escritor italiano Ítalo Calvino, não há dúvidas de que estamos diante de um que ainda tem muito a nos ensinar.

Nota do editor: o comunismo, na forma entendida por Kocher, refere-se modelo praticado por Stalin em função do golpe. De um modo geral, o comunismo em essência, parece nunca haver existido. O que existiu e que continua a existir de forma muito intensa, é o sentimento de comunidade inerente ás pessoas humanas. Talvez, ainda de forma mais latente, entre os menos abastados.


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Reflexão

reflexão# O direito à propriedade, o direito à terra e o direito humano.

Num momento em que muito se discute a questão da terra em virtude dos conflitos envolvendo, de um lado, indígenas e trabalhadores rurais, e de outro, fazendeiros, ver-se como oportuno abordar esse assunto de uma maneira mais séria com vistas a ampliar as perspectivas tanto de quem defende a distribuição, quanto de quem defende a feudalização das terras.

“A história do Brasil está povoada de conflitos e revoltas populares relacionados com a distribuição de terra. A Guerra de Canudos (1896-1897) no Nordeste, a Guerra do Contestado (1912-1916) no Sul, a Guerra do Formoso (1950-1960), no Centro-Oeste são alguns dos mais importantes episódios dessa história. De especial relevância nessa narrativa é a organização das Ligas Camponesas, movimento surgido em meados da década de 1950, da luta de arrendatários pelo acesso à terra no interior de Pernambuco (Martins, 1981). O crescimento das Ligas (só no Nordeste, elas tinham em torno de 70 mil associados) e a politização de seu discurso – que passou a incluir temas como a reforma agrária, o desenvolvimento e a questão regional -, foram considerados por muitos analistas como um dos detonadores do movimento que levou ao golpe militar no Brasil em 1964. Antes desse golpe, não apenas as Ligas, mas também o Partido Comunista (PC) e a Igreja Católica conservadora atuavam como agentes de mobilização social no campo, promovendo a sindicalização. O PC buscando aliados para a revolução proletária, a Igreja, [buscando] diminuir a influência do PC sobre os pobres. Ainda em 1963, respondendo à pressão que vinha do campo, o governo federal vai permitir a formação de sindicatos rurais e da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag).

Não por acaso, portanto, depois do golpe, a questão agrária vai ser um dos primeiros objetos da intervenção do novo governo. Com a ascensão do regime militar, o movimento das Ligas é desarticulado e seus principais líderes são presos, exilados ou assassinados. A Contag vai ficar sob intervenção até 1968. O marco legal da política fundiária do novo regime, o Estatuto da Terra (Lei n. 4.504) promulgado ainda em 1964, reconhecia o direito de propriedade daqueles que demonstrassem a posse da terra, os direitos daqueles que a arrendavam e também daqueles que trabalhavam em terra alheia. Além disso, sancionava a ideia de “função social da propriedade”, que serviria de critério para desapropriações de terras visando a reforma agrária no país. O texto era, sob vários aspectos, bastante avançado; na prática, não funcionou muito bem. Poucas desapropriações foram realizadas pelo governo. A força política dos fazendeiros, somada à importância da agricultura na estratégia de desenvolvimento do Brasil, conduziu a ação do governo para a modernização da produção rural. Esta, além da diminuição do uso de mão de obra em praticamente todas as regiões do país – gerando um contingente significativo de trabalhadores rurais sem-terra, ou, ainda que com terra, sem recursos para garantir condições mínimas de subsistência -, produziu uma concentração de terras ainda maior.” (…)

Entende-se que o direito à terra não é uma mera questão sobre o direito à propriedade. É, na verdade, uma questão sobre direito humano! É justo e digno. Sendo, portando, inalienável. Nesse sentido, existe uma exigência global pela busca de um equilíbrio ainda hoje, utópico. A linha que separa ricos e pobres nessa relação em torno da qual o governo se omite, dá sinais de rompimento. Justamente aí, demonstrando sua fragilidade.

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reflexão# O lirismo de Belchior num contraponto à alienação da força de trabalho!

Neste 1º de maio de 2017 trouxemos um texto que analisa como o lirismo de Belchior estabelece pontes com os fenômenos sociais do nosso tempo. Num momento em que, de um lado, se apregoa a emancipação do homem, e de outro, se impõe o cerceamento de liberdades e de direitos, o romantismo de Belchior é, em última instância, um apelo para que suas letras sejam relidas e repensadas:

belchior_ae“A imagem de Belchior vendida pela indústria cultural é a do artista brega, de voz fanha e bigodão – uma figura! Poucos prestam atenção nas letras. A forma simples de suas canções possibilitou sua assimilação pela indústria fonográfica, que criou-lhe uma imagem caricata e reproduziu suas músicas em massa, entre shows, premiações e programas de auditório, fazendo tábula rasa de seu conteúdo crítico. Belchior foi reduzido a um mero cantor romântico.

Em estética, o artista engajado politicamente deve escolher entre dois caminhos: o da forma artística de difícil assimilação – e remuneração! – para o público e para a indústria cultural; ou o da forma mais simples, de fácil assimilação do público e do show business. Ambas as opções estão fadadas ao silêncio político: uma não apela, a outra tem seu apelo anulado pela caricaturização. No fim, a indústria cultural impede que qualquer artista seja levado muito a sério, por seu ostracismo ou por sua redução a uma imagem vendável.

A especificidade de Belchior é a sua consciência perante esse processo todo. “Aluguei minha canção / pra pagar meu aluguel / e uma dona que me disse / que o dinheiro é um deus cruel / […] hoje eu não toco por música / hoje eu toco por dinheiro / na emoção democrática / de quem canta no chuveiro / faço arte pela arte / sem cansar minha beleza / assim quando eu vejo porcos / lanço logo as minhas pérolas” (TOCANDO POR MÚSICA, Melodrama, 1987).

Belchior demonstra uma compreensão total do processo de nivelamento – por baixo – da cultura por parte da indústria cultural, dificultando demasiado a ocorrência de composições com alto grau de complexidade – os artistas que se propõem a tal correm sempre o risco da miséria material e do esquecimento. Os próprios arranjos dos discos de Belchior são bem simples, com o teclado tendendo ao “engraçado”. Não é da mesma maneira em relação às letras, sempre de uma profundidade abissal e crítica ácida.

Belchior, antes de músico no sentido geral, é um compositor de canções. Cada autor encontra uma forma para se expressar: o ensaio filosófico, a pintura não-figurativa, a ópera, a canção. A canção foi a forma adequada que Belchior encontrou para transpassar seus pensamentos. É preciso ter em mente, ao pensarmos a obra de Belchior, um autor de vasta erudição, de poesia refinadíssima, conhecedor das línguas latinas e da literatura clássica, e um artista engajado politicamente de maneira radicalíssima. A partir da forma canção, Belchior oferece uma visão do Brasil e do mundo que pouquíssimos filósofos nascidos em nossas terras puderam vislumbrar. Como diz Nietzsche, o homem verdadeiramente de seu tempo sempre está à frente de seu tempo. É o caso de Belchior.

Uma das críticas mais ferrenhas do cancionista sobralense é contra a arte alegre, moda da época nos anos 1960-70. O filósofo Theodor Adorno, em sua Teoria Estética (1969) diz que a arte se utiliza de elementos da vida enquanto seus materiais; se a vida social é cindida pela divisão do trabalho, que separa o homem de sua produção e da natureza, e impede a felicidade enquanto reconhecimento recíproco entre sujeito e objeto, a arte que imita essa vida deve ser triste, como a própria vida. A arte alegre seria, então, ideológica, uma falsa verdade. A Bahia alegríssima de Caetano Veloso dos anos 1970 (a triste é de Gregório de Matos) não passa de logro, ilusão. “Veloso / o sol não é tao brilhante pra quem vem / do norte / e vai viver na rua” (FOTOGRAFIA 3X4, Alucinação, 1976). Surpreendente o jogo de ambiguidade: “veloso” pode ser tanto um adjetivo do Sol, velando pelo migrante e suas dificuldades na metrópole, ou assumir outro sentido completamente oposto, identificado com o próprio Caetano enquanto imperativo moral – “Veloso (Caetano), veja!, para quem sofre, o sol não é tão brilhante quanto dizes”. Ou então esta outra: “Mas trago de cabeça uma canção do rádio / em que um antigo compositor baiano me dizia / tudo é divino / tudo é maravilhoso / […] mas sei que nada é divino / nada, nada é maravilhoso / nada, nada é sagrado / nada, nada é misterioso, não” (APENAS UM RAPAZ LATINO-AMERICANO, Alucinação, 1976).

Chamado de “antigo”, pois já havia deixado de ser vanguarda e caído no pop, encontramos mais uma crítica a Caetano e sua composição “Divino Maravilhoso” (1968), em parceria com Gilberto Gil e que foi imortalizada na voz de Gal Costa. Vale notar, sem dúvida, que a crítica de Belchior a Caetano provém de alguma admiração: em entrevista ao Pasquim em 1982, Belchior diz que Caetano Veloso é o melhor letrista da MPB, “o autor da modernidade musical no Brasil”. Todavia, é com enorme verve materialista que ele fortemente rebate a letra de Caetano – “nada é divino, maravilhoso, sagrado, misterioso!”

alucinac3a7c3a3oO materialismo é um dos fundamentos da música de Belchior. Seus grandes inimigos são os escapistas, os fugidios, aqueles que diante de crenças metafísicas falam de uma vida reconciliada, feliz. Musicalmente representada na Tropicália, essa ideia era disseminada pelos hippies, com a cabeça feita por alucinógenos e um mix de espiritualidade. A resposta do materialista é ácida [sic]. “Eu não estou interessado em nenhuma teoria / em nenhuma fantasia / nem no algo mais / nem em tinta pro meu rosto / oba oba, ou melodia / para acompanhar bocejos / sonhos matinais / eu não estou interessado em nenhuma teoria / nem nessas coisas do oriente / romances astrais / a minha alucinação é suportar o dia-a-dia / e meu delírio é a experiência / com coisas reais” (ALUCINAÇÃO, Alucinação, 1976). É como se Belchior dissesse que não é por estar num registro de experiência desconhecido que essa experiência é necessariamente divina; especular metafisicamente sobre isso não passa de teoria vazia. E que o importante não é o plano espiritual, mas este aqui, o da miséria e do sofrimento, a realidade empírica e social.

Aos 29 anos em 1976, quando do lançamento do álbum Alucinação, Belchior teve o tempo, a maturidade e o olhar aguçado para ver a dissolução do sonho pacifista de liberdade. Os libertários de outrora logo se tornaram os burgueses. “Já faz tempo / eu vi você na rua / cabelo ao vento / gente jovem reunida / na parede da memória / esta lembrança é o quadro que dói mais / minha dor é perceber / que apesar de termos feito / tudo, tudo o que fizemos / ainda somos os mesmos e vivemos / como os nossos pais / […] e hoje eu sei / que quem me deu a ideia / de uma nova consciência e juventude / está em casa guardado por Deus / contando seus metais” (COMO OS NOSSOS PAIS, Alucinação, 1976). É curioso notar que foi exatamente “Como os nossos pais”, na magnífica voz de Elis Regina, a canção que colocou Belchior de fato no mercado fonográfico.

O radicalismo político de Belchior tem seu principal fundamento na crítica do dinheiro em si e do trabalho alienado, uma crítica mais profunda do que a mera crítica do capitalismo. O dinheiro é tratado enquanto fetiche e abstração, mas também enquanto necessidade material e fonte da corrupção moral. “Tudo poderia ter mudado, sim / pelo trabalho que fizemos – tu e eu / mas o dinheiro é cruel / e um vento forte levou os amigos / para longe das conversas / dos cafés e dos abrigos / e nossa esperança de jovens / não aconteceu” (NÃO LEVE FLORES, Alucinação, 1976). E é o trabalho aquilo que separa o homem da natureza, exterior e interior, desumanizando-o. “E no escritório em que eu trabalho e fico rico / quanto mais eu multiplico / diminui o meu amor” (PARALELAS, Coração Selvagem, 1977). Por isso, o aspecto político da obra de Belchior ultrapassa a defesa do socialismo centralista ou qualquer outro sistema que envolva a burocracia. O problema é um problema fundamental, primeiro, filosófico: a civilização. “Aqui sem sonhos maus, não há anhanguá / nem cruz nem dor / e o índio ia indo, inocente e nu / sem rei, sem lei, sem mais, ao som do sol / e do uirapuru” (NUM PAÍS FELIZ, Bahiuno, 1993). Profundo como um antropólogo anarquista, um Pierre Clastres da canção, a crítica mira o fundamento da coisa: a racionalidade ordenadora, dominadora, instrumental, como fora notado por Adorno e Horkheimer na Dialética do Esclarecimento (1946).

Belchior faz as denúncias fundamentais; sua arte é hegemonicamente negativa. Todavia, há um resquício de esperança nessa visão do Apocalipse, mesmo que a esperança fale sobre o que não deve ser. Nada absurdo para o cancionista sobralense, pois para ele a sociedade é ruim por excesso, não por falta. “Não quero regra nem nada / tudo tá como o diabo gosta, tá / já tenho este peso / que me fere as costas / e não vou, eu mesmo / atar minha mão / o que transforma o velho no novo / bendito fruto do povo será / e a única forma que pode ser norma / é nenhuma regra ter / é nunca fazer / nada que o mestre mandar / sempre desobedecer / nunca reverenciar.” (COMO O DIABO GOSTA, Alucinação, 1976). “Como o diabo gosta” deveria ter sido um hino da liberdade; passou despercebida, sem ninguém contestar a “Pra não dizer que não falei das flores” (Geraldo Vandré, 1968) o posto de canção de protesto.

Para Belchior, as palavras são um instrumento de luta política, do despertar da consciência contra a opressão e seus mecanismos ideológicos. “Se você vier me perguntar por onde andei / no tempo em que você sonhava / de olhos abertos, lhe direi / amigo, eu me desesperava / […] e eu quero é que esse canto torto feito faca / corte a carne de vocês” (A PALO SECO, Alucinação, 1976). Para tal intento, sua canção deve ter um quê de dissonância para com o sistema estabelecido, e em vez de cantar as “grandezas do Brasil”, tem de denunciar os horrores de uma sociedade civil falida. “Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve / correta, branca, suave / muito limpa, muito leve / sons, palavras, são navalhas / e eu não posso cantar como convém / sem querer ferir ninguém / mas não se preocupe meu amigo / com os horrores que eu lhe digo / isso é somente uma canção / a vida realmente é diferente / quer dizer / a vida é muito pior” (APENAS UM RAPAZ LATINO-AMERICANO, Alucinação, 1976). Se a arte é a mímese da vida, toda arte, por mais verdadeira que seja enquanto parte, não dá conta do todo. A realidade é pior do que a tristeza que a arte transpassa, e pior do que o pesadelo em sonho. É essa realidade que importa mudar.

Um mecanismo utilizado nas letras e nas melodias de Belchior é o da aproximação perante o ouvinte. Cearense, migrante, que na cidade grande sofreu, tocou em puteiros, foi explorado para “fazer a vida”. “Pra quem não tem pra onde ir / a noite nunca tem fim / o meu canto tinha um dono e esse dono do meu canto / pra me explorar, me queria sempre bêbado de gim” (TER OU NÃO TER, Todos os sentidos, 1978). É assim, por meio de sua experiência de vida trash, que Belchior realiza o approche para com o ouvinte. Ritmo simples e letra aguda, essa foi a aposta do cancionista para a politização da massa. “A minha história é talvez / é talvez igual a tua / jovem que desceu do norte / que no sul viveu na rua / que ficou desnorteado / como é comum no seu tempo / que ficou desapontado / como é comum no seu tempo / que ficou apaixonado e violento como você / eu sou como você que me ouve agora” (FOTOGRAFIA 3X4, Alucinação, 1976). Ao dizer “eu sou como você”, Belchior almeja arrebatar o outro como identidade, e trazer à tona a revolta contra a opressão; seu público – alvo, escolhido a dedo, não é o intelectual burguês letrado, mas o pobre que vai ao boteco depois da jornada de trabalho; ele o reconhece como indivíduo ativo a ser despertado: o sujeito revolucionário. Mas é claro que a indústria cultural fez de tudo para anular esse conteúdo: em plena ditadura militar, transformaram Belchior numa personagem caricata, num astro romântico, o galã de “Todo sujo de batom” (Coração Selvagem, 1977).

Belchior sabe, desde muito tempo, que “Eles venceram / e o sinal está fechado pra nós / que somos jovens” (COMO OS NOSSOS PAIS, Alucinação, 1976). Mesmo assim, não foi em vão seu esforço: além de todas as canções citadas até agora, ainda há muitas outras de conteúdo crítico ferrenho, como por exemplo “Pequeno perfil de um cidadão comum” (Era uma vez um homem e seu tempo, 1979), uma epopeia sem o elemento épico, que fala de como é vã a vida do sujeito raso, de gosto pouco refinado, cuja finalidade é voltada ao trabalho; “Arte Final” (Bahiuno, 1993), grande canção sobre tudo aquilo que deveria ter acontecido e não aconteceu; ou “Meu cordial brasileiro” (Bahiuno, 1993), que identifica a tese do “homem cordial” de Sérgio Buarque de Hollanda (Raízes do Brasil, 1936), o elemento diferenciador do brasileiro, com o aspecto consentido do nosso povo perante a política e o trabalho. Belchior teve sua poesia impregnada pela frustração de não ter podido colocar em prática o projeto por um mundo melhor, e sua música é mais verdadeira e mais revolucionária por isso: não promete a felicidade, mas escancara a impossibilidade dela no estado de coisas vigente.

No fim, em meio a essa cena sombria, nos tempos dele e no nosso tempo de agora, ainda há alguma esperança. Para Belchior, mais importante do que a filosofia ou a arte é a vida. “Primeiro o meu viver / segundo este vil cantar de amigo” (AMOR DE PERDIÇÃO, Elogio da Loucura, 1988). Sua filosofia é oposta à de Caetano: se para o compositor baiano, quem “mora na filosofia” está separado dos sentimentos humanos, a filosofia de Belchior provém da experiência; é pensamento vivo. “Deixando a profundidade de lado / eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia / fazendo tudo de novo / e dizendo sim à paixão / morando na filosofia” (DIVINA COMÉDIA HUMANA, Todos os sentidos, 1978).

Marcado no cancioneiro latino-americano como uma de suas grandes vozes, Belchior foi um mestre da poesia. Foi assimilado pela indústria cultural, de fato, como Mercedes Sosa ou Che Guevara. Ele se jogou na contradição da música popular, assim como qualquer um se joga nas contradições da lógica do trabalho. Assimilado, mas não rendido. “Marginal bem sucedido e amante da anarquia / eu não sou renegado sem causa” (LAMENTO DE UM MARGINAL BEM SUCEDIDO, Bahiuno, 1993). Não é por ter sido reproduzido e veiculado pela indústria cultural que Belchior perdeu totalmente a sua virulência: ela se mantém viva em ouvintes atentos que, como nós, encontram nele uma manifestação da consciência de seu tempo, e mais: a esperança de um mundo melhor, inteiramente outro. Por agora, o importante é viver. “Bebi, conversei com os amigos ao redor de minha mesa / e não deixei meu cigarro se apagar pela tristeza / sempre é dia de ironia no meu coração” (NÃO LEVE FLORES, Alucinação, 1976). Belchior, como Nietzsche, diz sim à vida, apesar de tudo, e talvez por isso tenha caído fora dessa loucura midiática que é a vida de um artista famoso sempre sob os holofotes.

Em relação às dúvidas acerca de seu paradeiro, que me perdoem os escandalizados, mas a letra já estava dada há muito tempo. “Saia do meu caminho / eu prefiro andar sozinho / deixem que eu decido a minha vida” (COMENTÁRIO A RESPEITO DE JOHN, Era uma vez um homem e seu tempo, 1979).”

Fonte:

Reflexão

reflexão# Para enfrentar o mito do “crescimento econômico”

“Pesquisadora britânica propõe novo paradigma para a ciência econômica: abandonar o “homem racional, autorreferido e calculista”; voltar-se ao bem-estar de todos e à salvação do planeta

Por George Monbiot | Tradução: Inês Castilho

Então, o que vamos fazer a respeito? Essa é a única pergunta que vale a pena fazer. Mas as respostas parecem evasivas. Diante de uma crise multifacetada – a captura dos governos por bilionários e seus lobistas, a desigualdade extrema, a escalada dos demagogos, e sobretudo o colapso do mundo vivo –, aqueles que deveriam nos liderar parecem atordoados, mudos, desnorteados. Ainda que tivessem coragem para agir, não têm ideia do que fazer.

O máximo que tendem a oferecer é mais crescimento econômico: o pó de pirlimpimpim que fará, supostamente, todo o mal desaparecer. Não importa que leve à destruição da natureza, que tenha fracassado em aliviar o desemprego estrutural ou a desigualdade crescente, e que nos últimos anos quase todo o aumento na renda tenha caído nas mãos do 1% do topo da pirâmide. Como os valores, princípios e propósitos morais estão perdidos, a promessa de crescimento é tudo o que resta.

Os efeitos disso podem ser vistos num memorando “vazado” do ministério de Relações Exteriores do Reino Unido: “O comércio e o crescimento são agora a prioridade em todos os cargos … os trabalhos em mudanças climáticas e comércio ilegal de animais silvestres, por exemplo, serão reduzidos.” Tudo o que conta é o ritmo em que transformamos as riquezas naturais em dinheiro. Quem se importa se isso destrói nossa felicidade e as maravilhas que nos rodeiam?

Não podemos esperar que essa situação seja enfrentada sem uma nova visão de mundo. Não podemos usar os modelos que causaram nossas crises para resolvê-las. Precisamos reformular o problema. Isso é o que faz o livro mais inspirador publicado este ano.

170424-EconomiaEm Doughnut Economics: seven ways to think like a 21st-century economist (Economia da rosquinha: sete maneiras de pensar como um economista do século XXI, (tradução livre)), Kate Raworth nos recorda que inicialmente o crescimento econômico não foi concebido como medida de bem-estar. Simon Kuznets, que padronizou a mensuração do crescimento, avisou: “o bem-estar de uma nação dificilmente pode ser aferido a partir da mensuração de sua renda nacional”. O crescimento econômico, ressaltou, mede apenas o fluxo anual, e não os estoques de riqueza e sua distribuição.

Raworth salienta que no século XX a economia “perdeu o desejo de articular seus objetivos”. Ela aspirou ser uma ciência do comportamento humano: uma ciência baseada num retrato profundamente falho da humanidade. O modelo dominante – “o homem econômico racional”, autorreferido, isolado, calculista – diz mais sobre a natureza dos economistas do que sobre outros seres humanos. A perda de um objetivo explícito levou a disciplina a ser capturada por uma meta indireta: o crescimento sem fim.

O propósito da atividade econômica, argumenta Raworth, poderia ser “responder às necessidades de todos a partir dos recursos do planeta”. Ao invés de economias que “precisam crescer, independentemente de produzirem bem estar”, precisamos de economias que “assegurem bem estar, que cresçam ou não”. Isso significa mudar nossa visão do que é a economia e de como ela funciona.

A principal imagem da economia mainstream é a de um diagrama de fluxo circular. Ela retrata um ciclo fechado de rendimentos de famílias, empresas, bancos, governo e comércio, operando num vácuo social e ecológico. Energia, materiais, o mundo natural, a sociedade humana, o poder, a riqueza que mantemos em comum: falta tudo isso no modelo. O trabalho não pago – das mulheres, principalmente – é ignorado, embora nenhuma economia possa funcionar sem ele. Assim como o homem racional econômico, essa representação da atividade econômica comporta pouca relação com a realidade.

Raworth começa por redesenhar a economia. Ela a incorpora nos sistemas da Terra e na sociedade, mostrando o quanto depende do fluxo de materiais e energia, e recordando que somos mais do que apenas trabalhadores, consumidores e proprietários de capital.

 

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Essa constatação de realidades inconvenientes logo leva à sua inovação: uma representação gráfica do mundo que desejamos criar. Como todas as melhores ideias, seu modelo de rosquinha parece tão simples e óbvio que você imagina por que não pensou nisso antes. Mas adquirir essa clareza e concisão requer anos de reflexão: uma grande faxina nos mitos e deturpações com que fomos formados.

O diagrama consiste em dois anéis. O anel interior da rosquinha representa a suficiência dos recursos de que necessitamos para levar uma vida boa: comida, água limpa, moradia, saneamento, energia, educação, cuidados de saúde, democracia… Qualquer pessoa que viva abaixo dessa linha, no buraco do meio da rosquinha, vive em estado de privação.

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O anel exterior da rosquinha consiste nos limites ambientais da Terra, para além dos quais provocamos níveis perigosos de mudanças climáticas, redução da camada de ozônio, poluição da água, desaparecimento de espécies e outros atentados ao mundo vivo. A área entre os dois anéis – a rosquinha – é o “espaço ecologicamente seguro e socialmente justo” no qual a humanidade deveria esforçar-se por viver. O propósito da economia deveria ser ajudar-nos a entrar nesse espaço e ali permanecer.

Assim como descreve um mundo melhor, o modelo da rosquinha nos permite ver, de imediato e de modo compreensível, o estado no qual nos encontramos agora. Neste momento nós violamos as duas linhas. Bilhões de pessoas ainda vivem no buraco do meio. E infringimos a fronteira externa em vários pontos.

 

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Uma economia que nos ajudasse a viver dentro da rosquinha procuraria reduzir as desigualdades com relação à riqueza e à renda. A riqueza decorrente das dádivas da natureza deveria ser amplamente compartilhada. Dinheiro, mercados, taxação e investimentos públicos seriam concebidos para conservar e a regenerar recursos, ao invés de dilapidá-los. Os bancos estatais investiriam em projetos destinados a transformar nossa relação com o mundo vivo, tais como transporte público de zero carbono e sistemas de energia comunitários. Novas métricas deveriam calcular a verdadeira prosperidade, e não a velocidade com a qual degradamos nossas perspectivas de longo prazo.

Esses objetivos nos são familiares, mas sem uma nova estrutura de pensamento é pouco provável que soluções parciais sejam bem sucedidas. Repensando a economia a partir de seus princípios fundamentais, Raworth possibilita que integremos nossas propostas num programa coerente, e possamos então verificar em que medida ele se realiza. Vejo a autora como a John Maynard Keynes do século XXI: ao reestruturar a economia, ela permite que mudemos nossa visão de quem somos, de onde estamos e do que desejamos ser.

Agora precisamos transformar suas ideias em política. Leia seu livro e exija daqueles que detêm o poder que comecem a trabalhar por seus objetivos: o bem estar humano, num mundo vivo.

Referências:

Reflexão

brasil# 25 artistas chamam atenção para a causa indígena!

A dica de hoje não é sobre um artista revelação. É maior do que falar sobre o sucesso de um indivíduo. É  uma manifestação de 25 artistas consagrados em defesa dos povos indígenas do Brasil, pelo direito à terra e pelo direito à vida!

Referências:

Reflexão

reflexão# Fortaleza, 291 anos.

Existe uma cidade invisível dentro de cada cidade real.

Uma cidade, a real é aquela feita de concreto, de obras inacabadas, de riqueza (de um lado), de miséria (de outro), e de outros tantos entretantos.

Já a cidade invisível, é concebida pela sua essência, pelo “algo de belo” que guarda em si mesma. Algo que, apesar das mudanças provocadas pelo tempo, será sempre este, o motivo pela qual alguém dela lembrará.

Talvez esse “algo” do qual me refiro seja um romantismo que se quer
mudo aos olhares desatentos, que se preserva resistente ao mal humor, ao desamor, e à infinitos absurdos.

Algo que, por natureza, recusa-se em compactuar com o descaso, com a imoralidade e, com a morosidade dos poderes instituídos, que permitem desigualdades segregando a sua gente de forma brutal.

São atributos abstratos de uma cidade que existe apenas como possibilidade, ou, de uma cidade ideal dentro da cidade real, cuja realização depende da capacidade de evolução de seu povo. Ou seja, uma cidade que se constrói, construindo sua própria gente.

Uma utopia que gosto de imaginar que é possível!

Contudo, Hoje, 13/04/17, a cidade de Fortaleza, capital do Ceará, completa 291 anos de idade. Somos uma cidade jovem, cheia de possibilidades. Podendo ainda ser uma cidade muito mais aprazível. Com tempo de redistribuir riquezas, equalizar direitos e se reeducar pelas diferenças dentro de uma nova lógica de igualdade. Temos tempo e podemos recomeçar agora mesmo.

contraste