Acadêmico, Comportamento

A palavra [16]: CONCLUSÃO

Quando iniciamos este trabalho, delimitamos nosso percurso intelectual no projeto de monografia, sob a forma de sumário. Agora que chegamos ao momento final da pesquisa, é hora de avaliar se nossos objetivos foram atingidos e de que forma o foram. No primeiro capítulo, buscamos realizar uma contextualização da vida e da obra de Wittgenstein, de modo que pudéssemos adentrar seu pensamento por meio das circunstancialidades nas quais a obra estudada está envolta. Na primeira parte desse capítulo, enfatizamos a trajetória intelectual do autor e as relações que se deram em torno da perspectiva teórica, de maneira a poder perceber como os acontecimentos influenciaram a conhecida reviravolta pragmática. Na segunda parte, relatamos um ponto fundamental de sua teoria, que culmina com a relativização do paradigma da função designativa da linguagem como concepção de uma linguagem ideal. Já na terceira e última parte desse capítulo, destacamos a transformação através da qual Wittgenstein chega à descoberta da função designativa da linguagem como apenas uma entre tantas outras possíveis, e esta viria a ser mesmo não um instrumento de comunicação de um conhecimento já realizado, mas condição de possibilidade para a realização do conhecimento humano enquanto tal. Diante de tais elucidações, acreditamos ter cumprido os objetivos propostos para esse capítulo.

Na primeira parte do segundo capítulo, analisamos a metodologia de Wittgenstein em suas principais obras, ocasião na qual enfatizamos, de forma mais apropriada, a reviravolta metodológica já diversas vezes mencionada neste estudo. Percebemos que nosso filósofo aplicou a si próprio o mesmo pragmatismo que impunha aos escritos de terceiros. Entre pesquisas e analogias, optamos por denominar seu método, na obra estudada, de descritivo-crítico pelos motivos anteriormente mencionados. Na segunda parte, relacionamos as categorias centrais das Investigações Filosóficas com os fundamentos platônico-aristotélicos, visto serem imprescindíveis para que Wittgenstein atingisse seus próprios fundamentos. Platão, por tratar-se do precursor no estudo da linguagem; Aristóteles, por estabelecer as bases sobre as quais a linguagem seria realizada, sendo esta uma estrutura lógica em que o pensamento seria a relação lógica entre o mundo (a realidade) e a linguagem. Na terceira parte, salientamos o rompimento entre a filosofia tradicional e a contemporânea, e encontramos, justamente em Wittgenstein, o elo entre essas duas grandes épocas. Esse filósofo foi o último representante do pensamento filosófico tradicional e o primeiro do contemporâneo e, como tal, responsabilizou-se pela quebra dos paradigmas que os separam fundamentalmente. Se Wittgenstein não respondeu a todas as questões decorrentes desse rompimento, tem, pelo menos, o mérito de havê-lo rompido, o que, por si só, é algo louvável. Assim, damos conta de mais um capítulo cujo desfecho converge rumo ao proposto para tal.

No terceiro capítulo, na primeira parte, tratamos dos fenômenos que se configuram como plano de fundo de toda a argumentação em torno da obra wittgensteiniana: a realidade física, que Wittgenstein chama de totalidade dos fatos e cuja linguagem tenta abarcar; a consciência, que supõe todo e qualquer agir humano em torno da realidade; e a subjetividade, que, para o filósofo em evidência, é a forma pela qual a linguagem se manifesta indeterminada. Na segunda parte, concebemos uma estética da linguagem a partir das noções colhidas nas duas principais categorias tratadas nas Investigações Filosóficas: as formas de vida e os jogos de linguagem. Wittgenstein define a forma de vida como sendo o contexto de ação no qual a linguagem se desenvolve (esta é sua imagem), e o jogo de linguagem como sendo a relação entre cultura e linguagem (esta é sua fisiologia). Por fim, na terceira parte desse último capítulo, buscamos criar condições para responder à pergunta em função da qual toda a argumentação foi estruturada. Questão esta recolhida das Investigações Filosóficas e respondida de modo a encontrar o assentimento de seu próprio autor. A significação de uma palavra é seu uso na linguagem – esta é a resposta para a questão central de nosso estudo. Agora, podemos dar por encerrada nossa argumentação.

Antes das considerações finais, julgamos necessário esclarecer que o pretendido com esta exposição não foi, de modo algum, demonstrar, ou provar nossos pontos de vista em relação à argumentação de Wittgenstein. Nosso objetivo primordial foi, concordando com o autor, procurar, na medida do possível, apresentar os fatos sem querer dar a eles uma segunda versão, pois concluímos que, para o trabalho filosófico, é mais importante a exposição, a explanação dos fatos em busca de uma proximidade maior com isto que se convencionou chamar de verdade, embora devamos concordar que alcançar uma verdade absoluta seja, de fato, impossível.

Finalmente, podemos dizer que a impressionante transformação espiritual pela qual Wittgenstein passou foi, certamente, determinante para a reviravolta linguístico-pragmática operada em sua vida. Tal acontecimento trouxe consequências radicais para todas as áreas do conhecimento na contemporaneidade. A linguagem, tradicionalmente concebida como uma imagem do mundo cuja principal função seria descrevê-lo, foi elevada ao status de condição de possibilidade de realização desse conhecimento, isto é, passou a ser o centro doador de significação dos fatos da realidade, visto que, com ela, conhecem-se e aprendem-se os fatos da realidade.

Nestes momentos finais, resta-nos ainda considerar o fato de que a concepção do fenômeno linguístico foi radicalmente modificada com Wittgenstein e a partir dele. Se, de forma geral, o senso comum porventura continua a ancorar suas experiências linguísticas em concepções tradicionais, podemos concordar que, cientificamente, essa concepção é, hoje, algo completamente defasado, o que nos leva a perceber a importância do pensamento filosófico de Wittgenstein para a contemporaneidade. Após a leitura dos escritos desse filósofo, é possível perceber que especialistas em linguagem, das diversas áreas do conhecimento, apropriam-se dessas descobertas no âmbito de suas respectivas profissões. Estudiosos das áreas da Semiótica, do Marketing, das Letras e da Linguística, em geral, têm se utilizado, cada vez mais, do legado wittgensteiniano, de modo a contribuir para o aperfeiçoamento de suas ideias.

A herança wittgensteiniana tem sido tratada, ao longo do tempo, sob as formas e os aspectos mais diversos, cada um contribuindo, com sua interpretação, para a expansão do conjunto da obra de Wittgenstein. Uns acusam outros de incorrer nos mais variados erros interpretativos, de considerar, ou de desconsiderar certos aspectos, contextos e relações nos quais o autor teria se baseado para chegar a suas descobertas. Independentemente do fato de haver interpretações certas ou erradas, o que fica é a relevância de todo o conjunto de argumentações desses estudiosos para o enriquecimento do conhecimento do fenômeno linguístico e desse fenômeno como condição para a evolução do conhecimento humano de modo geral.


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