Acadêmico, Comportamento

A palavra [15]: A palavra enquanto unidade central de significação

A obra aqui explorada tem como cerne o estudo da palavra e seu uso no processo de interação social dos homens. Procura considerá-la em todas as formas e sob todos os aspectos, inclusive, a partir das classes gramaticais e das convenções que se dão em torno do processo linguístico. A palavra é o meio pelo qual o homem pode expressar todo o conjunto de signos linguísticos a que tem acesso. Sendo a palavra a unidade central de significação de nossa linguagem, é através dela que podemos acessar os infinitos significados da realidade, instrumentalizando-nos para interpretá-la. A palavra tem a propriedade da flexibilidade, isto é, guarda em si todos os componentes da significação. Mais que isso: quando associada a outras palavras, essa capacidade de significar sofre, por assim dizer, uma espécie de dilatação, permitindo que possamos, através do significado, expressar coisas, atos, processos e fenômenos. Se considerarmos, ainda, as circunstâncias nas quais as palavras são postas, elas vão além daquilo que, comumente, percebemos. Elas assumem formas, aspectos, modos e tempos que variam de acordo com os contextos em que se situam.

No primeiro capítulo deste trabalho, dissemos, conforme a obra estudada, que Wittgenstein vê, na palavra, a unidade central de significação de nosso sistema linguístico, de modo que ela é que torna possível a articulação do pensamento em frases, porquanto é fundamental para a forma humana de se expressar. Vejamos, nas palavras do autor, um exemplo do que acima é dito, ao se referir a certo escrito de Santo Agostinho na obra Confissões.

“[…] Nessas palavras temos, assim me parece, uma determinada imagem da essência da linguagem humana. A saber, esta: as palavras da linguagem denominam objetos – frases são ligações de tais denominações. – Nesta imagem da linguagem encontramos as raízes da idéia: cada palavra tem uma significação. Esta significação é agregada à palavra. É o objeto que a palavra substitui.”[1]

Temos, então, já no parágrafo primeiro das Investigações Filosóficas, o exemplo de um diálogo em que Wittgenstein enfatiza, de forma simples, a função designativa da linguagem. Isso, contudo, se a compreendermos de acordo com os parâmetros tradicionais.

Prosseguindo, porém, a leitura do mesmo parágrafo e fazendo-a com atenção, vemos, um pouco mais adiante, que o que nosso filósofo pretende mostrar é bem diferente do que nossa observação nos induz a fazer de modo imediato. Analisemos a conclusão do parágrafo:

[…] “mas como ele sabe onde e como procurar a palavra ‘vermelho’, e o que vai fazer com a palavra ‘cinco’?’ – Ora, suponho que ele aja como eu descrevi. As explicações têm em algum lugar um fim. – Mas qual é a significação da palavra ‘cinco’? – De tal significação nada foi falado aqui; apenas, de como a palavra ‘cinco’ é usada.”[2]

Esse fragmento ressalta o modo como a palavra está sendo empregada dentro da forma de vida que a precede. Notemos que, pela maneira tradicional de pensar, somos induzidos a procurar pelo significado da palavra em detrimento de sua situação contextual, o que, de certa forma, invalida a análise que se faz nessas condições, visto que, assim, o diálogo ficaria desprovido de sentido. Essa é, segundo Wittgenstein, uma ilusão causada pela gramática da língua, que privilegia o significando do conceito e deixa de considerar o modo como as palavras são empregadas dentro de um processo. Ao que parece, encontramos, assim, a chave do pensamento do segundo Wittgenstein.

Não é que a palavra substitua o objeto ao designá-lo; o que ela faz é afirmar a existência desse objeto em função de determinados referenciais. Estes, por sua vez, são colocados em segundo plano por nós quando aprendemos o uso da linguagem por meio das normas gramaticais. Isso ocorre em virtude de serem as normas idealizadas sem a consideração das infinitas formas de vidas em que um processo pode acontecer. Dessa maneira, nossa compreensão do signo se torna errada pelo fato de desconhecermos, ou de mal identificarmos o núcleo segundo o qual o significado se processa. Explicando melhor: se procuramos pelo significado de uma palavra considerando a palavra em si mesma, podemos acreditar num significado fixo e imutável – o conceito. No entanto, se procurarmos pelo significado de uma palavra considerando a forma de vida na qual ela está inserida e a maneira como ela é empregada, teremos um significado variável de acordo com as circunstâncias. E, como, na práxis linguística cotidiana, isso é o que, de fato, acontece, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que a palavra, enquanto unidade de significação, não guarda ela própria seu significado, mas que este se processa conforme o uso que dela é feito.

Diante do acima exposto, remetendo à introdução do nosso trabalho, estando amplamente familiarizado com as categorias fundamentais do pensamento wittgensteiniano, e acreditando haver criado as condições necessárias para realização de nosso intento, podemos, então, responder, de forma apropriada, por que Wittgenstein diz, em sua obra Investigações Filosóficas, que a significação de uma palavra é seu uso na linguagem.

Durante todo o percurso que, agora, será concluído, procuramos enfatizar, de acordo com as obras estudadas, a questão dos contextos enquanto instância central de significação das expressões linguísticas. Os contextos, os quais Wittgenstein também chama de formas de vida, retratam o fenômeno que se manifesta através da interação social dos homens. É esse fenômeno, precisamente, a origem de todo o conjunto de significações presentes numa forma de vida: o jogo de linguagem. Esse jogo é o movimento que dá forma a uma forma de vida. É ele que determina o que se pode predicar de uma forma de vida e aquilo que nela é predicável. É, pois, resultado do processo de interação dos homens. Nessa perspectiva, Wittgenstein ressalta a maneira como são usadas as palavras dentro de um jogo, salientando a força das circunstâncias sobre o sentido das palavras e considerando os arredores do processo como imprescindíveis à materialização dos fenômenos linguísticos. Nesse sentido, conforme Oliveira (Oliveira, 2004), em sua Reviravolta Linguístico-pragmática, “a significação das palavras só pode ser esclarecida por meio do exame das formas de vida, dos contextos em que essas palavras ocorrem, pois é o uso que decide sobre a significação das expressões lingüísticas”[3].

Ao que constatamos no § 43 das Investigações Filosóficas, “pode-se, para uma grande classe de casos de utilização da palavra ‘significação’ – senão para todos os casos de sua utilização -, explicá-la assim: a significação de uma palavra é seu uso na linguagem”[4]. E ainda: “Todo signo sozinho parece morto. O que lhe dá vida? – No uso, ele vive. Tem então a viva respiração em si? – Ou o uso é sua respiração?”[5].

Desse modo, como tivemos oportunidade de constatar, em quase todos os momentos do estudo dessa obra, fica nossa questão fundamental respondida assim: o significado das palavras se dá por seu uso, ou seja, pela forma como a utilizamos quando interagimos com os demais. Não há significado fixo, imutável. Se assim fosse, nossa comunicação seria mecânica e desprovida de sentido na maioria das vezes. Para compreendermos o significado de uma palavra, temos que levar em conta os arredores do processo: as circunstâncias, os elementos extralinguísticos – o contexto de maneira geral.

Finalmente, após tantos parênteses e pontos finais, cremos ter cumprido a última etapa de nosso trabalho. Considerando a finalidade com a qual esta pesquisa foi realizada, isto é, a de tratar dos fundamentos da linguagem levando em conta as perspectivas que se abrem para uma nova forma de pensá-la no estágio atual de conhecimento da humanidade, esmiuçamos a obra de Wittgenstein, pondo-a em relação com antigas e novas categorias de pensamento, inclusive, trazendo, para o corpo deste trabalho, outras já bem esgotadas nos dias de hoje – como é possível notar. Salientamos que, para esta composição, privilegiamos o uso de uma linguagem simples, que pudesse, de forma clara, expressar nosso posicionamento em relação às orientações encontradas nas diversas fontes de pesquisa e, sobretudo, na obra que nos inspirou a realizar esse constructo. Esperamos, com isso, contribuir para o crescimento das pesquisas em torno desse tema, que, por si mesmo, já é bastante instigante, de modo que, agora, podemos, sem mais pormenores, colocar o último e definitivo ponto final.


[1] WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas. São Paulo: Nova Cultural, 1989. § 1. p. 9.

[2] Ibid., § 1, p. 10.

[3] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de, op. cit., p. 132.

[4] WITTGENSTEIN, Ludwig, op. cit., § 43, p. 28.

[5] Ibid., § 432, p. 131.

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