Acadêmico, Comportamento

A palavra [14]: Estética e fisiologia da linguagem

Dissemos anteriormente que as palavras adquirem significação mediante as circunstâncias, e que as circunstâncias se vinculam às maneiras de interação social dos homens. Se assim o é, então, é pela análise das formas de vida que podemos vir a compreender nossa própria linguagem. Concebendo o termo forma de vida, Wittgenstein nomeou as relações que se dão espontaneamente, entre cultura e linguagem, dentro do contexto de ação em que são efetivadas. Para ele, a forma de vida é um fenômeno que deve ser compreendido como resultado de processos linguísticos e extralinguísticos. Desse modo, fazer uso da linguagem é uma prática que deve ser encarada como outras ações por nós desempenhadas corriqueiramente. A forma de vida é, nesse sentido, o contexto geral em que se desenvolve a linguagem humana, melhor dizendo, é a imagem da linguagem. É nela que se aprende o comportar-se frente à variabilidade das situações e é por meio dela que se dá a própria história do homem.

Às relações que se dão no âmbito de uma forma de vida Wittgenstein chama jogo de linguagem. Este é um fenômeno intrínseco à forma de vida. É um movimento composto de elementos linguísticos e extralinguísticos que manifestam a fisiologia da linguagem no instante e na forma em que esta se realiza. Sobre isso, disse Wittgenstein: “Chamarei também de ‘jogos de linguagem’ o conjunto da linguagem e das atividades com as quais está interligada”[1]. O jogo de linguagem é o meio pelo qual se expressa, através de palavras ou de outras formas, o sentido dos signos relacionados a uma forma de vida específica, considerando-se a indeterminabilidade das situações e as possíveis formas que podem assumir quando postas em relação com outros referenciais.

O que Wittgenstein quer salientar é o caráter de fluidez da realidade, manifestado nos jogos de linguagem, dentro do contexto da forma de vida. Nos termos do autor, “o termo ‘jogo de linguagem’ deve aqui salientar que o falar da linguagem é uma parte de uma atividade ou de uma forma de vida”[2]. O jogo de linguagem não é produto de uma forma de vida, mas algo que ocorre simultaneamente a ela, numa relação íntima e concatenada; não podem, assim, ser desvinculados um do outro. É um jogo regido por regras que, todavia, não se impõem de maneira rígida, permitindo que os participantes possam escolher o jeito mais adequado, ou mesmo, mais confortável, de se manifestarem mediante o uso das palavras. Isso tendo em vista que não há como estabelecer uma regra específica para cada ação, ou prever determinada ação em virtude de uma regra pré-estabelecida. Wittgenstein enfatiza:

“Que diremos então? Você tem regras prontas para tais casos – que digam se se podem ainda chamar a isto de ‘poltrona’?’. Mas elas nos escapam quando usamos a palavra ‘poltrona’; e devemos dizer que não ligamos a esta palavra nenhuma significação, uma vez que não estamos equipados com regras para todas as possibilidades de seu emprego?”[3]


[1] WITTGENSTEIN, Ludwig, op. cit., § 7, p. 12.

[2] Ibid., § 23, p. 18.

[3] WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas. São Paulo: Nova Cultural, 1989. § 80. p. 49.

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