Acadêmico, Comportamento

A palavra [10]: dos fundamentos platônico-aristotélicos para os jogos de linguagem

Platão, um dos nomes mais expressivos da tradição, tem o mérito de haver sido o primeiro a tratar da linguagem como objeto de investigação filosófica. A obra Crátilo doou à sua investigação uma pesada carga metafísica. Os conceitos nela contidos baseiam-se na dualidade mundo sensível-mundo inteligível, o que, aliás, é a grande descoberta desse pensador. Ancorou sua investigação na busca pelo significado da palavra, o que equivale à busca pela própria essência das coisas, o qual seria uma causa que subsistisse em relação à própria palavra. Para Platão, as palavras eram criadas por um sábio, o Nomoteta, que, como profundo conhecedor das essências, atribuía com perfeição o significado correspondente à ideia da qual a palavra era meio de expressão.

O que levou Platão a realizar tal empreendimento em busca da desmistificação dos fenômenos linguísticos foi a tomada de posição em relação à retórica do discurso sofista, que considerava carente de legitimação. Para ele, os sofistas acreditavam na instituição da linguagem como fruto de convenção entre os homens, todavia sem haver demonstrado o argumento de forma prática. Platão exerce uma crítica do discurso sofista; não rompe, porém, com a dialética entre eles existente. Essa crítica consistia em uma profunda análise da essência da palavra, na procura pelo elemento imutável a partir do qual seria possível conceber a palavra em um sentido único, isolado das circunstâncias e de qualquer contexto. “Platão acreditava que o único meio era constituir um discurso que contivesse ele próprio seu critério de validade”[1], de modo a enfrentar a manipulação dos conceitos através de seus possíveis significados.

Já Aristóteles não trata da linguagem diretamente; trata da lógica do discurso, da estrutura, da forma que todo enunciado deve ter para expressar e demonstrar algo. Ao procurar uma sistematização do conhecimento, Aristóteles buscou, na verdade, uma maneira através da qual pudesse identificar as estruturas de cada saber específico com uma estrutura maior, ou seja, com uma superestrutura que comportasse todas as outras, porquanto fosse capaz de dar conta da realidade em sua totalidade. A forma encontrada foi, portanto, a instituição de um critério com o qual pudesse validar a identidade entre essas estruturas, isto é, a lógica (então designada, pelo filósofo, de analítica). Aristóteles substituiu a transcendência platônica pelo empirismo e este é uma característica sua. Isso implica um pragmatismo que necessita da observação do real para se concretizar e, com base nessa observação, o filósofo ora enfatizado elaborou uma teoria que pretende promover a compreensão dos enunciados a partir de sua construção gramatical, entendendo esta como condição para uma compreensão da semântica.

Com base nos tópicos acima desenvolvidos, consideramos que três argumentos se mostram relevantes para o desenvolvimento deste capítulo. Primeiro: a essência, que, para Platão, é condição de possibilidade de existência do significado, torna-se, em Aristóteles, substância, que indica a unidade entre o signo e seu significado. Ambas as vertentes são, para o segundo Wittgenstein, fruto do essencialismo do pensamento tradicional que ele próprio se lança ao combate, motivo pelo qual trata de descartá-los. Segundo: do mesmo modo, despreza a dualidade platônica entre o mundo sensível e o mundo inteligível[2], que Aristóteles pretendeu substituir por uma identificação conceitual entre a estrutura do mundo e a do pensamento[3] em razão de que, em sua concepção, não há distinção de mundos como imaginava Platão, e de acreditar, diferentemente de Aristóteles, que a estrutura do mundo nos é dada imediatamente com a da linguagem[4]. Terceiro: tomando a palavra, que, para Platão, é o elemento em função do qual os elementos linguísticos se articulam para construir o significado[5] e a lógica, que, para Aristóteles, é o mecanismo de validação da relação entre palavra e significado[6], Wittgenstein enfatiza a subjetividade humana[7] como mediadora da relação entre palavra e lógica, de modo a poder construir um significado, conceitualmente falando, mais próximo da realidade em sua fluidez.


[1] GARCÍA-ROZA, Luiz Alfredo. Palavra e Verdade na Filosofia Antiga e na Psicanálise. 4. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 61.

[2] REALE, Giovanni. História da filosofia antiga. São Paulo: Loyola, 1994. (Série História da Filosofia). p. 203.

[3] Ibid., p. 468-470.

[4] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de, op. cit., p. 127-128.

[5] GARCÍA-ROZA, Luiz Alfredo, op. cit., p. 58.

[6] REALE, Giovanni, op. cit., p. 456-458.

[7] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de, op. cit., p. 141.

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