Acadêmico, Comportamento

A palavra [9]: Reviravolta metodológico-pragmática e rigor intelectual

Iniciada em 1936, a obra Investigações Filosóficas só veio a ser terminada no ano de 1950. É composta de duas partes distintas, uma das quais foi terminada em 1946 e a outra, bem pouco antes da morte do autor, conforme dito acima. A distinção entre as duas partes se refere à cuidadosa ordenação paragrafal da primeira e à ordem aleatória da segunda. Esta também está dividida em treze partes, ordenadas, como o próprio Wittgenstein disse, “[…] às vezes como longos encadeamentos sobre o mesmo objeto, às vezes saltando em rápida alternância de um domínio para outro […]”[1].

Os escritos nela contidos são considerados uma obra-prima da literatura alemã. É preciso observar que não representa uma doutrina específica, nem tem a pretensão de sê-lo. Investigações Filosóficas traz, conforme a indicação de nossas fontes de pesquisa, a prova de uma radical oposição ao trabalho wittgensteiniano anterior, o Tractatus, e, consequentemente, a toda a tradição filosófica da qual o filósofo foi o último representante. Essa obra tem caráter indireto e assistemático, o que revela o desprezo de Wittgenstein pelas antigas concepções filosóficas. Rejeita as demonstrações pelo cálculo lógico e enfatiza as suposições em que fundamenta suas categorias[2].

Contemporâneo de Russel e de Moore, pode-se dizer que Wittgenstein adota um estilo de escrita um pouco menos peculiar que o tradicional, ou seja, adota um estilo extremamente simples, que pode ser, contudo, considerado eficaz. Nega-se ao cometimento de certos abusos, esboçando um estilo próprio e, ao mesmo tempo, coletivo. Tinha um cuidado extremo com a forma com a qual escrevia e posicionava seus escritos, pois tinha o objetivo de não ser mal-entendido e queria que sua escrita transmitisse exatamente aquilo que pretendia com seu pensamento. Era, por assim dizer, um pragmático que, de certa forma, fora vítima de seu próprio rigor intelectual. Acreditava que por meio da compreensão da fisiologia de nossa linguagem (e de seu uso reto) é que seríamos capazes de atingir um esclarecimento real, baseados no qual poderíamos acabar com o mal-entendido que estava na origem do problema filosófico.[3] Isso se reflete de forma muito clara na escrita wittgensteiniana. Ao editá-la, o filósofo buscava atingir uma organização que pudesse reduzir ao máximo a ocorrência de mal-entendidos, chegando mesmo a uma quase perfeição. Diante dessas considerações, podemos afirmar que o estilo de Wittgenstein não está claramente delimitado dentro disto que chamamos de convencional e que seria melhor definido como algo entre diversos estilos. Wittgenstein admite que:

“Após várias tentativas fracassadas para condensar meus resultados num todo assim concebido, compreendi que nunca conseguiria isso, e que as melhores coisas que poderia escrever permaneciam sempre anotações filosóficas; que meus pensamentos logo se paralisavam, quando tentava, contra sua tendência natural, forçá-los em uma direção.”[4]


[1] Wittgenstein. São Paulo: Nova Cultural, 1989. (Coleção Os Pensadores). p. 7.

[2] GLOCK, Hans-Johann. Dicionário Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 34.

[3] MACHADO, Alexandre Noronha. As Investigações Filosóficas de Wittgenstein: Estilo e Método. In: Colóquio Prazer do Texto, 2., 2006, Salvador. Anais eletrônicos…Salvador: UFBA, 2006. Disponível em: http://alexandremachado.50webs.com/pesquisa/comunicacoes/investigacoes.pdf>. Acesso em: 21 set. 2008.

[4] Wittgenstein, op. cit., p. 7.

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