Acadêmico, Comportamento

A palavra [7]: O segundo Wittgenstein – A linguagem como condição de possibilidade do conhecimento humano

Entramos na segunda fase de Wittgenstein. O itinerário por nós percorrido até aqui é de fundamental importância para que possamos compreendê-la, pois é contrapondo-se suas duas fases que se torna possível chegar a um entendimento acerca das suas Investigações. Nesta fase, Wittgenstein assume uma perspectiva de frontal oposição em relação à tradição, que tem sua última expressão justamente com o Tractatus Logico-Philosophicus, sua obra anterior. O cerne de seu pensamento permanece o mesmo; o que muda, entretanto, é a perspectiva.

“[…] Wittgenstein desenvolve seu pensamento na segunda fase como uma crítica radical à tradição filosófica ocidental da linguagem, cuja expressão última havia sido precisamente o Tractatus. Em suma, sua obra da segunda fase encontra-se em fundamental oposição com a da primeira, mesmo que o problema central permaneça o mesmo.”[1]

Wittgenstein passa por mudanças profundas que o levam às Investigações Filosóficas, esta que é sua obra de maturidade. Não acredita mais ser possível a existência de uma linguagem através da qual se pudesse exprimir a realidade de uma forma lógica e absoluta. Descobriu que a linguagem, em sua prática cotidiana, manifesta-se cheia de imprecisões; então, viu-se constrangido a repensar seu próprio pensamento, o que teve como consequência a refutação de si próprio de maneira radical.

Nessa fase, Wittgenstein pretende acabar com a concepção individualista da consciência e, consequentemente, com o dualismo epstemológico-antropológico da tradição ocidental. O homem, pensado como consciência individual, é pelo filósofo em pauta posto num plano secundário, pois este compreende que, no processo linguístico, a intersubjetividade é condição de possibilidade de realização da própria linguagem; a busca por um elemento que forneça significação às palavras encontra repouso no fato de o filósofo haver vislumbrado que é o uso da palavra, no contexto em que é empregada, que determina sua significação. A internalização desse sentido de uso da palavra é, para Wittgenstein, a ponte entre as diversas subjetividades.

‘Ele vai situar o homem e seu conhecimento no processo de interação social, o que vai levar, posteriormente, não só à consideração da relação entre conhecimento e ação, linguagem e praxis humana, como também à consideração explícita do papel da comunidade humana na constituição do conhecimento e da linguagem humana […]”[2]

Wittgenstein critica veementemente o essencialismo da tradição filosófica que ajudou a forjar. Para ele, não é mais admissível que dada forma de linguagem seja absolutizada como paradigma sobre todas as outras. Essa seria a causa de uma ilusão metafísica que induz ao erro de se crer num significado próprio e específico para cada palavra. Como vimos acima, o significado das palavras se dá por seu uso, de modo que pode variar conforme as circunstâncias. “Para o segundo Wittgenstein, tal ideal não passa de um mito filosófico. Um ideal de exatidão completamente desligado das situações concretas do uso da linguagem carece de qualquer sentido.”[3]

O filósofo propõe, assim, uma espécie de abandono de todo o aparato lógico-formal ideado pelo próprio homem, o que equivale a conceber a linguagem humana de forma distinta da até então realizada. A linguagem, enquanto exigência a ser satisfeita para a construção do conhecimento humano, deve ser tratada sob uma perspectiva mais ampla e isso significa considerar sua forma e seus aspectos de um modo geral, não apenas como faziam os gregos com suas inclinações teleológicas, que reduziam a totalidade das coisas àquilo a que elas supostamente tendiam, ou seja, para sua finalidade. Conforme Oliveira: “A teoria objetivista da linguagem tem, pois, caráter reducionista, uma vez que reduz todas as funções da linguagem a uma única.”[4]


[1]jOLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 117.

[2]jOLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 132.

[3] Ibid., p. 131.

[4] Ibid., p. 127.

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