Acadêmico, Comportamento

A Palavra [6]: O primeiro Wittgenstein – A função designativa da linguagem como paradigma de uma linguagem ideal

Wittgenstein é um dos principais herdeiros do pensamento aristotélico. Tendo, em suas obras, abordado exclusivamente a linguagem, teve a oportunidade de ampliar conceitos fundamentais de Aristóteles que tratam da lógica e que se aplicam à linguagem. Propôs-se, assim, a uma nova sistematização do ato de predicar o real. Admitiu os erros da tradição e partiu em busca de superá-los.

Em sua primeira fase, pensa, a partir da relação entre linguagem e pensamento, uma estrutura para o mundo e, com ela, uma forma de expressá-lo. Idealiza um conceito no qual a significação está condicionada à associação a outros conceitos, ou seja, a significação só existe dentro de um contexto.

“[…] para o Wittgenstein do Tractatus, o sentido de uma frase é o fruto da associação das significações de seus elementos. O que há de novo aqui é que o elemento só tem significação enquanto elemento, isto é, enquanto membro de uma frase e não mais independente dela como era antes.”[1]

Supera, na tradição, a noção de que o mundo seja a totalidade das coisas, instituindo como categoria fundamental de seu pensamento a do fato, o que faz com que, desse modo, o mundo seja a totalidade dos fatos. Esclarece-se que, aqui, fato deve ser entendido como o subsistir de um estado de coisas, sendo este, por sua vez, a forma como se configuram os fatos dentro de um processo. O filósofo diferencia fato e estado de coisas como sendo um referente a algo que ocorre, já o outro, referente a algo que pode ocorrer.

“A categoria fundamental, pois, para a expressão do mundo é a categoria do fato (Tatsache). Ora, Wittgenstein distingue essa categoria da categoria de ‘estados de coisas’ (Sachverhalt). A diferença fundamental entre ambos é, como interpreta muito bem Stenius, que o ‘estado de coisas’ se refere unicamente ao conteúdo descritivo das frases, enquanto fato se refere a sua realidade; usando as expressões de Stegmuller, o fato diz respeito a algo que realmente ocorre, enquanto o estado de coisas representa, apenas algo que possivelmente pode ocorrer.”[2]

Wittgenstein fala de um isolamento ontológico dos elementos fundamentais que trata das distinções entre estados de coisas atômicos e estados de coisas complexos, sendo estes também chamados de situações. Isso dentro da noção de que as informações chegam a nós por meio dos estados de coisas e a estrutura das situações é de natureza lógica. Idealiza um conceito chamado espaço lógico, para abordar da estrutura da totalidade dos estados de coisas; esse recurso serve para elucidar a diferença entre o mundo real e o mundo possível. O autor diz que fazemos figurações do mundo e isso é fundamental para nosso estudo, pois daí decorrem dois fatos: primeiro, a transformação do mundo em pensamento e, segundo, a expressão linguística do mundo, ou seja, a conversão deste em frases. Sobre isso, diz Oliveira:

“As informações do mundo nos vêm sempre por meio dos estados de coisas, e a estrutura das situações é de natureza lógica. Com a ajuda do espaço lógico, Wittgenstein fala da estrutura da totalidade dos estados de coisas embora os estados de coisas, quanto ao conteúdo sejam sempre isolados. E é por isso que esse conceito, como diz Stegmuller, serve para elucidar a diferença entre o mundo real e o mundo possível.”[3]

“[…] Nosso mundo real é apenas um ponto no espaço lógico onde são pensáveis outros pontos ou outros mundos possíveis. Neste espaço estão os fatos que constituem o mundo real, mas poderiam estar outros, pois é possível pensar outras configurações de objetos.”[4]

Nesse raciocínio, Wittgenstein propõe o isomorfismo para demonstrar, a partir das correspondências, o fato de que, quando alguém vê algo ocorrer e, ao vê-lo, tenta comunicá-lo a outrem, procura fazê-lo de uma maneira que represente o ocorrido como tal. Assim, declara a existência de dois mundos: o dos fatos e o dos pensamentos. Afirma que deve haver identidade entre o primeiro (o que ocorreu) e o segundo (a figuração do ocorrido). A teoria do isomorfismo põe em primeiro plano a questão da verdade, que Wittgenstein pretende resolver com o conceito de forma lógica, que, num discurso, nada mais é do que a coerência entre o fato e o que ele figura. A forma lógica é, portanto, o elemento regulador de relações entre o mundo dos fatos e o dos pensamentos. Desse modo, a verdade seria, então, o produto dessa relação (desde que esta se realize dentro dos critérios acima mencionados). A figuração de que fala Wittgenstein

“Trata de explicar a correspondência entre mundo e pensamento (linguagem). Ora, para Wittgenstein tal correspondência só é possível quando ambos os pólos têm algo em comum, ou seja, a forma de afiguração. Essa identidade, que permite a correspondência, é a ‘forma lógica’, que Wittgenstein determina como a forma da realidade.”[5]

O critério que Wittgenstein utiliza para fundamentar a teoria da figuração é a estrutura do mundo, que põe em relação com a forma da figuração. A figuração pode assumir qualquer forma de realidade, desde que haja correspondência entre elas. Essa correspondência implica uma identidade lógica entre o fato e o que ele afigura. Sendo o pensamento o meio lógico para a realização dessa transição, pode-se dizer que ele é a proposição significativa dos fatos, enquanto a linguagem é o meio pelo qual predicamos algo a respeito do mundo. De fato, “‘o pensamento é a proposição significativa’ e a linguagem se refere diretamente ao mundo objetivo. Trata-se, portanto, de dois fatos fundamentais: o mundo como fato e a frase como fato, o qual expressa o pensamento do mundo”[6].

O sistema do primeiro Wittgenstein está dividido em três conjuntos, os quais contêm a forma da linguagem. O conjunto das frases elementares é o dos signos proposicionais, no qual está contida a expressão do pensamento. A frase elementar é a unidade de significação em que está a representação do fato, sendo considerada, ela própria, também um fato. O conjunto das frases complexas é aquele no qual está incluída a estrutura lógica da linguagem, em que, precisamente, processa-se o fenômeno da figuração. A forma lógica, que é o elo entre a figuração e o figurado, tem a propriedade de figurar a realidade, entretanto não pode afigurar aquilo que há de estruturante entre ela e o fato, isto é, a realidade. O conjunto das frases decisivas é o que abrange a unidade de sentido do sistema linguístico de Wittgenstein. Esse conjunto se refere aos anteriores na medida em que verifica o sentido das frases neles produzidas.

“Ter sentido para uma sentença significa para Wittgenstein ser verdadeira ou falsa. Toda sentença possui dois pólos que constituem seu sentido, isto é, o pólo da verdade e o pólo da falsidade. O valor de verdade não é atribuído, posteriormente, ao sentido, mas o sentido mostra-se precisamente no poder ser verdadeiro ou falso.”[7]


[1] Ibid., p. 97.

[2] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 98.

[3] Ibid., p. 99-100.

[4] Ibid., p. 101.

[5]jOLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 102.

[6] Ibid., p. 107.

[7]jOLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 111.

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