Acadêmico, Comportamento

A Palavra [5]: Wittgenstein – O homem, a obra e o tempo.

Na obra Investigações Filosóficas, que corresponde à segunda fase de seu pensamento, Wittgenstein abre infinitas possibilidades para a linguagem. Num ato improvável, dá uma completa reviravolta linguística ao refutar a grande obra de sua vida, o Tractatus Logico-Philosophicus, e, com isso, toda a tradição filosófica ocidental. Não significa que, agindo assim, tenha chegado a negá-la, mas que chegou a restringir o campo de abrangência de categorias fundamentais ali ideadas. Neste estudo, pretendemos esmiuçar as suas Investigações Filosóficas na tentativa de adentrar seu pensamento para, assim, obter esclarecimentos indispensáveis ao conhecimento da linguagem humana; “o que ela é?”, “como funciona?” e “como se aplica?”. Nesse sentido: “Wittgenstein não vai negar o caráter designativo da linguagem, mas vai rebelar-se fortemente contra o exagero da tradição – posição assumida também no Tractatus – de ver na designação a principal e até mesmo a única função da linguagem”[1].

Investigações Filosóficas é uma obra construída em meio a conturbações existencialistas, políticas, econômicas e sociais. O período compreendido entre os anos de 1939 e 1945, somando-se ao que se segue após a guerra, foi de rivalidade em meio às nações, crise, terror, ceticismo e desespero entre as pessoas. O fato de haver presenciado duas grandes guerras e participado ativamente delas influenciou, sem dúvida, a visão de mundo de Wittgenstein. Isso se reflete de forma muito clara nessa obra e se pode avaliar pela verificação do abandono de suas antigas crenças e da radical mudança de perspectiva no que se refere ao núcleo de seu próprio pensamento, conforme podemos constatar:

“Wittgenstein, depois de ter abandonado a filosofia por coerência com o Tractatus, passou por uma lenta e dolorosa transformação espiritual desde mais ou menos 1930 até o fim de sua vida, e as Investigações Filosóficas são propriamente, a expressão desse itinerário de seu pensamento.”[2]

Segundo a obra em questão, é preciso se desfazer das superstições adquiridas com a lógica linguística. A sistematização gramatical criara uma espécie de ilusão metafísica que nos faz crer numa linguagem ideal em que seja possível a existência de uma superestrutura lógica e formal, na qual possamos ancorar nossas crenças e saberes, como sendo esta um paradigma universal e absoluto, o que para o segundo Wittgenstein não passa de um engano. “‘A linguagem (ou pensamento) é algo único’ – isto se revela como uma superstição (não erro!) produzida mesmo por ilusões gramaticais”[3].

O segundo Wittgenstein faz críticas severas à tradição. Reporta-se a ela de maneira contundente, expondo suas falhas e admitindo suas contradições. Contrariamente ao que prega a tradição, Wittgenstein afirma indiretamente que a linguagem, propriamente dita, é constituída pela totalidade dos jogos de linguagem, que, por sua vez, são as diversas formas e situações em que um fato pode se apresentar. Para esclarecimento, ressaltamos que essas formas e situações correspondem ao que Wittgenstein chama de formas de vida ou contextos. Senão vejamos: “Jogada a linguagem dentro da situação, Wittgenstein percebe que a diferente linguagem faz parte da totalidade dessa situação de vida humana, que ela é parte da atividade humana, ou, em sua expressão, uma forma de vida do homem.”[4]


[1] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 119.

[2] Ibid., p. 117.

[3] WITTGENSTEIN, Ludwig, op. cit., § 110. p. 54.

[4] OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. p. 132.

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