Acadêmico, Comportamento

A Palavra [3]: INTRODUÇÃO

A tradição filosófica ocidental sempre concebeu a linguagem como um instrumento de designação do real, no que podia ter razão até certo ponto, pois, conforme Wittgenstein, com a linguagem, realmente se podem descrever coisas, objetos ou fatos. No entanto não é apenas isso que se pode fazer com ela. Para nosso filósofo, a linguagem não é mero instrumento de descrição dos fenômenos da realidade. Com ela, pode-se fazer muito mais. Wittgenstein percebeu isso e, através da obra supracitada, pretende retirar o fenômeno linguístico dessa compreensão, que pode ser considerada, por si só, defasada.

Desde os gregos, a linguagem foi tomada em sua acepção designativa. No livro Tractatus Logico-Philosophicus, de Wittgenstein, esse caráter foi absolutizado como a única forma de concepção da linguagem, o que teve como consequência a transformação desse modo de uso da linguagem em um paradigma de uma linguagem segundo o qual fosse possível exprimir todos os fenômenos da realidade pela simples descrição. Como último representante dessa corrente de pensamento, Wittgenstein ratifica-o ao propor um modelo de linguagem exata, de acordo com os fundamentos da lógica, ainda que preservando seu caráter fundacionista.

O pensamento filosófico de Wittgenstein está dividido em duas fases bem distintas, as quais, comumente, denominamos de “primeiro Wittgenstein”, na qual a obra Tractatus Logico-Philosophicus está compreendida, e de “segundo Wittgenstein”, na qual se situa a obra Investigações Filosóficas. Essa distinção pode ser considerada como decorrente da profunda transformação espiritual operada na vida do autor e que se reflete de modo muito claro em seu filosofar. Wittgenstein abandona suas crenças anteriores e se coloca em radical oposição à tradição ocidental. Essa reviravolta, que pode ser considerada em todos os aspectos de sua vida, tem como consequência a quebra do paradigma segundo o qual a linguagem seria meramente designativa. Para o filósofo, isso seria a conversão de um único jogo de linguagem como sendo o paradigma de uma linguagem ideal[1].

Após essa radical transformação, Wittgenstein passa a orientar suas investigações para uma nova perspectiva de conhecimento. Com a relativização da linguagem, sua função descritiva passa a ser considerada tão somente como um entre infinitos jogos linguísticos. Por outro lado, essa mesma linguagem que utilizamos para nos comunicar corriqueiramente se eleva ao status de condição de possibilidade do conhecimento humano, coisa que não se poderia dizer quando considerada sob a perspectiva tradicional e mesmo no Tractatus. O que Wittgenstein faz é perceber que, fazendo parte do conjunto das ações humanas, a linguagem não poderia servir apenas para descrever os objetos, visto que é por meio dela que conhecemos os fatos e é com ela que podemos falar sobre eles. A linguagem é, pois, uma prática que se distingue das outras por constituir-se como forma de representação de todas as práticas, mas que nem por isso pode delas ser desvinculada.


[1] Wittgenstein, Ludwig. Investigações Filosóficas. São Paulo: Nova Cultural, 1989. § 592, 593. p.

Links:

 

Anúncios

1 thought on “A Palavra [3]: INTRODUÇÃO”

Ajude-nos a melhorar. Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s