Feito no Brasil, Música

Brasil# Luiz Gonzaga – um legado rico de sons e de imagens!

[o presente texto é resultado da colaboração entre Neivaldo Araújo e Eu]

gonzaga-de-pai-pra-filhoTodo brasileiro conhece ou deve conhecer, pelo menos em parte, a historia de Luiz Gonzaga. Na cultura nordestina seu nome é lembrado ao lado de lendas como a de Lampião e de Padre Cicero. Sua historia é cinematográfica: um menino pobre que fugiu de Exu (na dedada de 80, uma das cidades mais violentas do Brasil, que vivia a guerra de duas famílias, os Alencar contra os Sampaio), com um sonho e algum talento, construiu uma carreira que atravessou modas e conjunturas e fez história na música popular do Brasil. Falecido, em 1989, teve somente em 2012, sua história contada em filme.

abr84---da-esquerda-para-a-direita-os-musicos-dominguinhos-guadalupe-fagner-e-sivuca-durante-gravacao-com-luiz-gonzaga-o-rei-do-baiao-centro-1356025670592_956x500O Rei do Baião, como acabou ficando conhecido, foi sempre fiel às suas origens, às suas raízes. Diferente de muitos artistas, renegou todos os modismos musicais e construiu um nome que é lembrado como o maior divulgador da cultura nordestina no país. Um aspecto admirável na sua obra é a grande influencia musical que exerceu nas várias gerações de músicos, a contar de seu surgimento como artista. Sua musica se tornou referencial para, não apenas nordestinos, mas músicos, intérpretes e compositores de todo o país.

silvia-101.0211A Jovem Guarda na década 60 trouxe definitivamente o rock para o Brasil, e com ele, gírias e modismos copiados da cultura pop inglesa. Nem por isso deixaram de prestar referência à Luiz Gonzaga. O casal 20 da Jovem Guarda Eduardo Araújo e Silvinha, gravaram belas versões do compositor pernambucano, como foi caso de “Juazeiro” em ritmo de soul na voz de Eduardo Araújo (que considera Gonzaga um dos artistas mais representativos do país e, mais do que isso, um papa da musica brasileira), e “Paraíba” em um autentico rock psicodélico numa interpretação perfeita de Silvinha.

arton4511O Tropicalismo, movimento musical vanguardista inspirado na contra cultura e liderado pelos baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, fizeram uma revolução na musica brasileira ao misturar elementos da cultura jovem mundial como o rock, à psicodelia, à guitarra elétrica e à música genuinamente brasileira. Entre suas influências, o Baião, de Luiz Gonzaga.

Naquela época, alguns críticos consideravam ultrapassada a estética sonora de Luiz Gonzaga. Concomitantemente, ouvir as canções de protesto com apelo e teor politico era sinal de estar em sintonia com aqueles tempos. Nesse sentido, as versões dos baianos para algumas canções do mestre Gonzagão, fizeram a juventude “mais” ideologicamente engajada, conhecer e discutir o valor atemporal da música de Luiz Gonzaga.

caetano_veloso_02Caetano Veloso em seu disco de 1971, gravou uma longa versão do clássico “Asa Branca”, uma interpretação lenta, na qual enfatizou o sotaque e os ritmos regionais. Num estilo muito parecido, Gal Costa gravou a triste “Assum Preto” (as duas musicas de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) em o antológico show “Gal a Todo Vapor”.

download22222De acordo com as diversas pesquisas realizadas, parece-nos que, de todos tropicalistas, aquele que mais permitiu-se influenciar pelo som de Luiz Gonzaga enquanto referencial musical-estético foi mesmo Gilberto Gil. Um artista que sempre valorizou em sua obras os ritmos genuinamente nordestinos. Tendo demonstrado em diversas ocasiões, o gosto pela música de Gonzagão, Gil gravou um disco inteiramente dedicado às canções de Luiz Gonzaga em 2012.

Oriundos de vários estados, no começo dos anos 80 uma geração de nordestinos invadiu literalmente a musica brasileira. do Ceará, nomes como Belchior, Fagner e Ednardo; de Pernambuco, Alceu Valença e Geraldo Azevedo; da Paraíba, Elba Ramalho e Zé Ramalho. Todos com um ponto comum, a música Luiz Gonzaga.

gonzagao-e-fagner-frente-500x498Fagner ainda na sua fase “Pessoal do Ceará”, no álbum de 1974, fez uma leitura de “Riacho do Navio”. Uma interpretação moderna, bem no estilo vanguarda – uma de suas características no inicio da carreira. Em 1984 lançou um álbum completo em parceria com Luiz Gonzaga, gravando grandes sucesso do Rei do Baião. Um disco que ajudou a consolidar seu nome no panorama da música brasileira, e, até hoje, um disco importantíssimo na sua carreira.

Flor da PaisagemA cantora Amelinha em seu disco de estreia “Flor de Paisagem” de 1977, gravou “Cintura Fina” no ritmo do velho e bom forró com gingado, feito para dançar. Disco que, inclusive, completa 40 anos em 2017. [E que], segundo define a cantora, foi o “cartão de visitas” de sua carreira. [Nesse sentido], demorou um pouco para tocar nas rádios. A estreia de Amelinha no mercado fonográfico, contudo, foi resultado de histórias e momentos diversos, que antecederam a gravação e foram decisivos para a construção de sua identidade artística.

alceu-valenca-divulgacao-1Alceu Valença considera Luiz Gonzaga seu mestre desde a sua juventude. Para ele, a musica de Gonzaga é tão importante quanto a de Elvis Presley. Como poucos, gravou Luiz Gonzaga: Baião, Respeita Januário, Vem Morena, e muitas mais. Enquanto morou fora, Valença conta que: “entre uma conferência e outra, cantando para os hippies, comecei a tocar Luiz Gonzaga. Os gringos ficaram loucos com essa música! Pensei: “Vixe, lá no Brasil, ninguém gosta disso”, porque Gonzaga estava em baixa. Eu, como sou da mesma região dele, ouvia as canções que influenciaram o Gonzagão. Vi que eu tinha que tocar as músicas da minha terra.” Outro causo que merece destaque é que: “ao assistir a um show de Alceu, no início de sua carreira, o sanfoneiro avaliou o novato: “Sua música soa como uma banda de pífano elétrica”. E, “no último encontro, o mestre pediu ao discípulo que cuidasse de seu legado: “Não deixe meu forrozinho morrer”.

20140820183122398186uA esfuziante Elba Ramalho, era uma espécie de afilhada de Luiz Gonzaga, herdeira musical direta, em 2002 gravou o disco Canta Luiz em homenagem ao mestre Luiz Gonzaga, repleto de clássicos do cancioneiro popular brasileiro. “Luiz Gonzaga sempre esteve na minha música, foi o que ouvi desde criança. Ele gostava do meu trabalho e sempre o elogiava, desde que gravamos juntos Sanfoninha Choradeira, em 1984.” Ao escolher as 13 faixas do disco, Elba evitou os hits de propósito. Gravou O Xote das Meninas e Vem Morena, mas preferiu o choro O Xamego da Guiomar (que canta com Zeca Pagodinho), a valsa Orélia, o xote Aquilo Bom (Garotas do Leblon) e O Cheiro da Carolina, porque acredita existir uma vertente esquecida do público.”

img-1037562-marisa-monteChega à geração dos anos 90 e mais uma vez a musica brasileira passa por uma renovação que revelaria, entre outras, a cantora Marisa Monte. E logo eu seu primeiro álbum de 1989 homenageia Luiz Gonzaga com uma fantástica leitura de “O Xote das Meninas”. A escolha de Marisa, não poderia ser mais certeira, pois assinala o encontro da poesia de Gonzagão com o estilo doce e cativante da cantora. “Seus versos iniciam cantando o mandacaru, um cacto que independe da chuva para florescer, fenômeno esse que, quando acontece no período da seca, deixa o caboclo crente de que a trovoada se aproxima. Tal superstição nos levou a estabelecer uma símile entre a flor de mandacaru, sinal prodrômico da chuva que chega dando fecundidade à terra, e a menina que, enjoando da boneca, torna-se mulher.”

A música, como quase todos os movimentos estéticos, se renova por meio de ciclos, que geralmente se dão por revisões e revisitações de obras que marcaram um período histórico ou um estilo de época. Admirado por muitos, Luiz Gonzaga deixou um legado riquíssimo de sons e de imagens, que faz com sua obra se projete sempre para a frente a despeito do tempo. Disto decorre que uma obra com tamanho valor concreto e simbólico será sempre motivo de revisitas e de releituras por parte de artistas de um modo geral, não somente músicos. A obra de Luiz Gonzaga é indelével.

Referências:

neivaldo______
Neivaldo Araújo

Tendo a música como seu maior referencial artístico e cultural, pesquisa e escreve sobre temas como o romantismo e o existencialismo dos anos 70 e 80, os quais, foram imprescindíveis para o surgimento e a qualificação dos movimentos musicais brasileiros e internacionais.

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3 thoughts on “Brasil# Luiz Gonzaga – um legado rico de sons e de imagens!”

  1. Pegando o gancho do Rogério falando sobre o Siba (que não conheço), seria interessante uma pesquisa sobre a nova música de raiz nordestina!

    Curtido por 1 pessoa

  2. É verdade, amigo. Eu mesmo tenho me trabalhado sobre a maneira de enxergar e de adentrar nesse universo. Acho que não há nada mais representativo do sertão e da nossa nordestinidade do que a música de Luiz Gonzaga. Claro que, enquanto pesquisava, me perguntei várias vezes se “aqueles que gravaram com o Gonzagão e mesmo os que o gravaram post morten, o fizeram de forma genuina, ou não. O fato é que, independentemente de tudo isso, a obra de Gonzagão, como falei no parágrado final, não pode ser apagada.
    Obrigado por trazer seu ponto de vista! Forte abraço.

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  3. Mesmo sem entender de musica (sobretudo a nordestina), sigo com a forte impressão de que ainda estamos órfãos do LG.
    Como se a musica com referência ao sertao nao escapasse de:
    A – um olhar para o sertao de fora pra dentro, de quem.um dia esteve la e hj escreve da sacada do seu ap na zona sul carioca.
    B – uma referencia ao próprio Luiz Gonzaga

    Na minha porca discografia ainda enxergo esse olhar (de dentro pra fora) na obra do Siba, provavelmente por ainda residir em Nazaré da Mata.

    Aquela musica do LG que tem a zuada da porteira batendo, que nao me lembro o nome mas semore me emociona, é uma das mais brilhantes leituras sobre o Brasil ja feitas, pareando facilmente com Villa Lobos e Itiberê.

    Parece que o que podia ser escrito sobre o Sertão o Luiz ja o fez, e se nao o fez, foi pq esqueceu de fazê-lo.

    Parabens pelo texto e pesquisa!
    Lama

    Curtido por 1 pessoa

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