Brasileirinhas, Música

Pessoal do Piauí: histórias e canções

[O texto a seguir é uma colaboração de Neivaldo Araújo]

O Pessoal do Ceará foi um movimento musical (embora negado por alguns), no inicio da década de 70, revelou grandes nomes da musica cearense como Raimundo Fagner, Belchior, Ednardo, Fausto Nilo, Amelinha entre outros. Do grupo nasceram canções que são consideras clássicos, sendo praticamente impossível alguém dizer que nunca ouviu “Como Nossos Pais”, “Mucuripe”, “Pavão Misterioso” ou outras canções de sucesso nacional.

baya-telaAgora o que pouca gente sabe ou pelo menos quase não se comenta, é que dentro desse grupo de grandes artistas cearenses, existe outro grupo menor, não tão compacto, porém de grande talento também, vindo de um estado vizinho o Piauí, artistas que foram fundamentais para a consolidação de uma musica que marcou época, a maioria desses cantores se radicaram em Fortaleza, em busca do sonho do vestibular e participaram de toda efervescência cultural da cidade, a boemia e os festivais.

Vamos conhecer alguns desses grandes cantores e compositores, que gosto de chamar de Pessoal do Piauí:

melloJorge Mello compositor, produtor, escritor e advogado. Nasceu em Piripiri, nos anos 60. Radicou-se em Fortaleza e participou ativamente do movimento que lançou os artistas cearenses à fama nacional. Mello se mudou com o objetivo de prestar vestibular. Foi aprovado em Direito na UFC. Ao mesmo tempo, procurava os canais locais de TV em busca de trabalho. Acabou convidado para produzir o “Gente que a Gente Gosta”, na TV Ceará, depois transformado em “Porque Hoje é Sábado”.

Esse espaço foi fundamental para a formatação do que viria a ser o Pessoal do Ceará, espécie de incubadora de talentos. Como diretor musical, convidou Petrúcio Maia para se apresentar, em seguida, inserido no circuito da música e de festivais, Jorge conheceu Fagner, Ednardo e outros nomes. Jorge Mello convida Belchior para ser parceiro na produção do programa. Ao mesmo tempo, os novos amigos lhe apresentaram à vida boêmia em Fortaleza. Nesse roteiro, o Bar do Anísio era ponto certo, onde todos se reuniam frequentemente.

A convite da apresentadora Cidinha Campos partiu para o Rio de Janeiro, na cidade maravilhosa, trabalhou na produção do programa de Cidinha na TV Tupi. Pouco depois, chegaram Fagner e Cirino. Enquanto isso, São Paulo recebia Rodger Rogério e Téti, que formaram o grupo Pessoal do Ceará.

EM 1972 venceu o premiado no Festival Universitário do Rio de Janeiro com a canção “Felicidade Geral”, que lhe rendeu seu primeiro contrato com uma gravadora, a Polygram. Em 1976 Jorge lançou o disco “Besta Fera”, à época eleito o melhor do ano pelos jornais O Pasquim, Estadão e Jornal da Tarde.

Em 1977, o ele foi um dos cinco contratados pela Warner, recém-chegada ao País. Por esta gravadora ele lançou o álbum “Jorge Mello Integral”. Apesar do reconhecimento da crítica especializada, os trabalhos de Jorge não tinham o mesmo impacto no grande público.

A incompatibilidade entre as convicções artísticas do cearense e a pressão das gravadoras para decidir os rumos de sua criação levaram-no a recusar contratos e investir em outros nichos do mercado. Paralelamente à realização de discos e shows, jingles, trilhas sonoras para cinema e TV, produzia discos de outros artistas e espetáculos de teatro, Jorge continuou trabalhando no mercado de trilhas, jingles e eventos.

clodoUm trio de irmãos piauienses foram de grande importância para musica cearense nos anos 70, falo dos irmãos Clodomir, Climério e Clésio Ferreira nascidos no Piauí. Radicados em Brasília são compositores fundamentais na MPB. Clodo e Clesio são os autores do grande sucesso popular de Raimundo Fagner, a canção “Revelação” que colocou Fagner nas paradas de sucesso e o consagrou junto ao grande público.

Clodo fez a letra da melodia e conta que precisou fazer três versões da letra até que ela casasse com aquela melodia. Ao ouvir a música, Fagner pediu que os irmãos reservassem para ele, pois queria gravá-la. Assim, nasceu a música mais famosa de Clésio. Apesar de ser grande conhecedor da língua portuguesa, talvez por esse conhecimento, Clésio escrevia menos. Mesmo sendo conhecido como poeta, tem mais melodias do que letras próprias.

Nara Leão se interessou pelas músicas dos irmãos Ferreira e foi a Brasília para se encontrar com eles. Ela gravou Por um triz, composição dos três. “A Nara compôs junto com o Fausto Nilo e com o Fagner a música Cli, Cle, Clo. A única composição dela”, conta Clodo. Cli, Cle e Clo são as iniciais dos nomes dos irmãos incluída no álbum Romance Popular de 1981.

Os três fizeram parcerias com Dominguinhos separadamente. Como o pernambucano só compunha melodias, Clésio compôs as letras de Caxinguelê e Dia Claro. Outras músicas dos Ferreira foram gravadas por grandes nomes da música brasileira. E Revelação foi regravada diversas vezes.

Clodo tem outras canções de grande importância para carreira de Fagner como Cebola Cortada em Petrucio Maia e Corda de Aço com o próprio Fagner. Depois da era do vinil, Clodo Ferreira e Climério continuaram em carreiras solo e gravaram alguns CDs. Clodo é o que mantém sua carreira artística mais ativa, realizando apresentações mais constantes em Brasília.

“Os irmãos Ferreira trouxeram o Piauí para Brasília. E eles ficaram conhecidos aqui com essa temática. Que não era uma temática exclusivamente piauiense, porque eles também entraram numa temática universal. Mas essa fase é muito marcante”, diz o jornalista Beto Almeida. Ele explica que a estética piauiense é agreste e doce. “Eles faziam versos, aparentemente, despretensiosos. São versos concisos, simples e profundos”

Climério que é autor de canções como Conflito com Petrucio Maia e Flora com Ednardo e Dominguinhos, afirma que existe uma espécie de sotaque do Piauí nas músicas deles. Eles também tinham influências das músicas românticas e da música nordestina, como um todo, Clésio que era de Angical do Piauí faleceu 2010.

clodoUm dos letristas mais inspirados do Pessoal do Ceará foi Antônio José Soares Brandão ou simplesmente Brandão, que é cearense, mas morou desde criança até a adolescência no Piauí, quando sua família mudou de novo para o Ceará, arquiteto por profissional, revelou toda sua poesia na arte de compôr (principalmente) com seu parceiro Petrucio Maia, juntos fizeram Além do Cansaço, Acorda e Sorri, Pé de Sonhos, Frio da Serra, Estrada de Santana.

Brandão também é o responsável por varias artes gráficas nas capas dos LPs, sendo de sua criação o famoso carneiro na capa do álbum Massafeira. Na segunda geração da Pessoal do Ceará, que ficou conhecida pelo lançamento do álbum duplo Massafeira, o Piauí também estava muito bem representado.

Nesse período uma família de piauienses se destacam: Foi em Parnaíba que a Família Fonteles Miranda se fixou, chegando do município de Barras de Maratuã, Os Fonteles adotaram Fortaleza e foram por ela adotados, entre o fim dos anos 70 e o início da década seguinte, atraídos pela vontade de continuar os estudos e pela reputação da Universidade Federal do Ceará os irmãos que inclui a cantora Ana Fonteles, e os músicos Jabuti, Tim e Zezé Fonteles. “Viemos gradativamente quase em carreira.”

anaAna Fonteles, chegou em Fortaleza em 78, estudou no colégio Farias Brito, recém-chegada, Ana participou de um evento referencial para a história da música cearense o Massafeira Livre reuniu dezenas de artistas de diversas áreas, com destaque para a música popular, em espetáculos no Theatro José de Alencar, os irmãos participaram ativamente da vida cultura da cidade em shows em espaços como a Concha Acústica da UFC, o Teatro Universitário, o Anfiteatro da Volta da Jurema e o Teatro da Emcetur.

Ganhando destaque na cena musical Ana Fonteles lançou um álbum em 1990, destacando a canção “Quintal” dos irmãos Jabuti e Zeze Fonteles, infelizmente a cantora faleceu em 2004 aos 41 anos de câncer de Pâncreas.

pioOutro Piauiense dessa geração que faz parte da historia da musica de Fortaleza, mantendo seu trabalho até hoje é Francisco Pio Napoleão conhecido como Chico Pio, filho de pais cearenses e natural da Parnaíba, Mudou para Fortaleza aos 14 anos, logo dando início a sua carreira musical. Em 1975, fez shows em bares e teatros no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Teve músicas registradas por Lúcio Ricardo, Ângela Linhares, Paulo Rossglow e Zé Ramalho “Forrobodó”. Participou do Massafeira e muitos outros festivais, conquistando varias premiações, Chico Pio tem três cd´s gravados: Chico Pio–1995, Marca Carmim–1997 (em parceria com Luciano Cléver) e Beira do Mundo–1999.

Fica notório na obra desses artistas, todos do Piauí, a qualidade de suas composições, que embora a maioria de maneira quase anônima, fizeram varias gerações cantar e admirar suas canções.

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Neivaldo Araújo

Tendo a música como seu maior referencial artístico e cultural, pesquisa e escreve sobre temas como o romantismo e o existencialismo dos anos 70 e 80, os quais, foram imprescindíveis para o surgimento e a qualificação dos movimentos musicais brasileiros e internacionais.

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