Reflexão

Por que o sexo na existência humana é humano

erotismo1Defendo que é uma posição mui ingênua argumentar ser a sexualidade humana eminentemente animal pois antes de tudo falar do sexo humano não é falar do sexo do ponto de vista filogênico mas todavia ôntico – e é certo que a ontogênese (história biológica do indivíduo) não é igual à filogênese (história evolutiva da espécie) bem como a sexualidade ôntica não diz respeito à sexualidade biológica.

Mesmo do ponto de vista filogênico aliás, é importante perceber que quando dele se fala, abre-se espaço para dizer que assim como o homem descende do animal-não-humano por evolução, o animal-não-humano descende do homem por involução. Nesse sentido, pensar em evolução necessariamente é pensar em involução, donde se segue que dizer que o sexo humano é animal é tão obscuro quanto dizer que o sexo animal é humano. Além do mais, quando se fala que o sexo humano é animal muito pouco se diz, porque não podemos falar do sexo animal per si. Quando dele falamos, falamos sempre aos moldes humanos, nunca à maneira animália. Sendo assim, nos é impossível pensar em qualquer tipo de sexualidade piamente animal e por conseguinte, expressar a disposição sexual humana aos moldes não-humanos é um passo infundado. Ou seja, o sexo entre indivíduos humanos só pode ser concebido a partir da própria linguagem e vivência humana (e sobretudo da vivência).

Caso haja alguma forma de falar da animalidade do sexo humano, esta será sempre pelo âmbito carnal humano, e nunca pela animalidade piamente animal. Bataille, quando concebe que a vida sexual dos homens pode ser animalesca, é um exemplar disso. O autor abre um possível espaço para as relações animais quando diz que em alguma instância o sexo humano só é erótico quando não é puramente instintivo. Ainda assim porém, Bataille não torna possível falar da relação animalesca a partir da animália, mas tão-somente a partir da ausência de eros. Quanto à sexualidade biológica, o próprio Bataille ratifica: a ciência nunca estará à altura do erotismo. Os textos biológicos só podem falar do sexo em suas causalidades orgânicas, e não naquilo que ele é. Portanto, as teorias da sexualidade humana aos moldes biológicos carecem de uma recondução a outros termos conquanto antes de ser biológico, o sexo humano é interpessoal, interintelectual, interafetivo.

Que quero dizer com isso? Sobretudo que homens e mulheres não fazem sexo com um órgão do corpo, na verdade, o corpo humano é mais ou menos como o que propõe Bacon: “Um corpo sem órgãos”. Pouco temos contato com este ou aquele órgão do corpo, nossa maior relação é com “o pensamento que humanamente pensa e sente” esses órgãos, e portanto, a sexualidade humana é sobretudo pensada – no sentido mais amplo e afetivo do pensamento. Eis que o sexo humano carrega todas as angústias, paixões, medos, amores e escolhas do ente, e o movimento sexual do homem e da mulher não só trabalha com a relação prazer e dor, mas também com a aporia relacional entre o corpo e o vazio, o movimento e o repouso, o eu e o outro – por necessidade o erotismo humano abrange os problemas e mistérios da solidão e da fragilidade da existência humana. Nesse sentido, o erotismo não é um problema animal, mas é, por excelência, um problema pessoal e, ao mesmo tempo, curiosamente, profundamente, transpessoal.

Fonte: Filovida

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