Comportamento, Música

Rock You like a Hurricane, Fortaleza!

[o presente texto é uma colaboração de Abda Medeiros]

Blackout! Mal se fecharam as cortinas do espetáculo que fora o show do Iron Maiden em Fortaleza, no dia 24 de Março de 2016, os bastidores no interior e fora do Estádio Castelão davam como certa a vinda do Scorpions à “terra do sol”. Esta banda alemã oriunda de Hanôver, formada em 1965 pelos irmãos Schenker e que dialoga esteticamente tão bem com o rock Metal, de fato, foi anunciada alguns dias depois da avalanche britânica que invadira a cidade.

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No arquivo musical, o Scorpions ocupa na vitrola, em CD, DVD ou páginas da crítica do Hard rock, o virtuosismo dos solos de guitarras, as simpáticas letras que povoam as memórias e os afetos, sem perder de vista uma de suas marcas mais intensas, leves e cativantes que é o vocal diferenciado de Klaus Meine. Arrisco-me a dizer que, em conjunto com Aerosmith (dos viscerais Steve Tyler e Joe Perry) e Guns N’ Roses (envolvente pelas guitarras de Slash e a diversidade de vocais que ao final dos anos 1980 transformavam Axl Rose no frontman-mito), o grupo alemão forma a tríade potencializadora desse tipo de Rock.

Sendo a banda Scorpions um dos grupos musicais mais bem sucedidos na indústria fonográfica, sem perder de vista o “sotaque” alemão, o que Fortimg_6456-2aleza presenciaria no dia 08 de Setembro, numa daquelas quintas-feiras do inverno brasileiro, mas cujas temperaturas no Nordeste se fazem verão sempre, de fato, era a agregação de diferentes pessoas, cada uma em sua faixa etária, a reunião de famílias, todos em sua grande maioria trajando preto, ocupando as ruas do entorno da Vila Olímpica, eufóricos e ensaiados para em uma só voz ecoar: Scorpions! Scorpions! Scorpions!

img_6476Quando o relógio badalou 22h, uma explosão de luzes, cores e música irradiaram a Vila, ainda em aspecto rústico em decorrência da construção inacabada; talvez mais quente que qualquer outro ponto da cidade, mas transbordando em alegria. “Going Out With a Bang!” As cortinas se abriram e dali surgiram Rudolf Schenker e Matthias Jabs nas guitarras, Pawel Maciwoda no contrabaixo, Mikkey Dee (ex-Motorhead temporariamente no lugar de James Kottak) na bateria e Klaus Meine nos vocais. O peso, a força e a velocidade imprimiram o ritmo da noite. Como resposta, a plateia os acolheu na alma, cantando, acenando com os braços, permitindo que o corpo fosse os devires “Rock you like a Hurricane”, em sua animalidade mais visceral: “The Zoo”.

Entre uma canção e outra, Klaus buscava se comunicar num português muito mais de gratidão do que normativamente correto. No palco, alémimg_6509 de cantar e tocar, ele distribuiu afetos e baquetas para os de perto e os de longe, numa sintonia musical que só aqueles que se dedicam à audição desse tipo de música
se permitem viver e ser afetado. Por outro lado, Rudolf usava e abusava do seu virtuosismo rebelde nas guitarras e nas indumentárias. A cada passo que dava ou mediante a projeção nos telões, ele cada vez mais se aproximava do público, deixando-os em êxtase. Mattias e Pawel até pareciam mais “silenciosos”, mas era apenas impressão. O primeiro em conjunto com Rudolf ou de forma isolada, mostrava-se um dedilhador irrepreensível nas cordas, “camarada das linhas de guitarra”, numa elegância única. E o que falar de Pawel? Sem ele, Mikkey não esbanjaria a brutalidade (advinda de sua forma de tocar e da experiência com o Motorhead) que imprime na rítmica de bateria; o mesmo diria este para Pawel. As linhas de contrabaixo e bateria desconstroem qualquer ideia equivocada de que o Scorpions é apenas uma “baladinha roqueira”. Que que é isso, “Ave Maria do Morro?!” Os dois juntos incendiaram o ambiente em “good times and fun”, bem propício ao pós “Holiday” do “dia da pátria”.

dsc_5003Com cinquenta anos de história bem vividos e triunfando sobre contextos e paisagens no estilo “We Built This House”, o Scorpions celebrava naquela noite a geografia musical e o nomadismo dos afetos que o levou a lugares inimagináveis, uma espécie de “Send me an Angel”; ou, em algumas ocasiões, como rajadas de “Wind of change” quando os muros das duas Alemanhas e do leste europeu, tornavam-se pontes. Travessias “Make it Real” nos embalos de “Delicate Dance” que só eles sabem fazer.

Não há nada mais “Still loving you” observar gerações formando uma dsc_5147comunidade moral e musical, misturando-se umas as outras, às canções e ao grupo musical em apresentação, tornando aquele espaço de competições em uma grande festa cuja lógica própria transcende o espírito dos jogos. O que se percebia naquele evento, marcado pela música, o suor, os cheiros de bebidas e pipocas que circulavam pelas arquibancadas eram que as coisas são cheias de vida e esta é plena de coisas que pulsam, transtornam e retornam ao cotidiano, sob a inspiração “Rock’n’ Roll Band”: Scorpions!

dsc_4816Estávamos na “Big City Nights” – “Always Somewhere” – e ainda faltava chegar um dos convidados mais homenageados pelos palcos do mundo, uma espécie de “No one like you”. Refiro-me ao inesquecível Lemmy Kilmister. Ele chegou cheio de pompas, aplaudido e veloz como “Overkill” sonora que sempre foi. Ao final da execução da canção de Motorhead, a imagem do ilustre surgiu nos telões nas laterais do palco, feitos “fundos de portas retratos”, onde se guardam as memórias das imagens mais significativas e o turbilhão de emoções que elas evocam e proporcionam.

img_6266Mas no “Top of the Bill” do repertório comemorativo, teve espaço para um breve acústico com todos os integrantes da banda na plataforma frontal do palco. Uma trilha sonora “Coast to Coast”, sem perder de vista o entusiasmo “Eye of the Storm”, orquestrando vozes, cordas e percussão, numa mistura de delicadezas, intimidades e subversões que só um grande conjunto musical como o Scorpions, rompedor de certos estereótipos da disciplina weimariana alemã, produz com maestria. “Steamrock Fever!”

img_6489E se todo esse espetáculo era Fortaleza e esta, por sua vez é Nordeste, o Nordeste é Brasil. E como país somos “Dynamite”, simbolizado na bandeira em verde e amarelo exibida nos telões de palco. Somos cheios de feitiços cotidianos experimentados em territórios ambíguos, sobre os quais perguntamos: “Speedy’s Coming?” E se ele não vier e não der sequer sinal de fumaça, “Catch Your Train”, confira seu caminho e no mais… Ah! Não há espaço para retrocessos.

Assim como na vida, o show é a experiência enquanto fluxo. E já era hora de seguir img_6469pelos caminhos da memória daquela noite tremenda. O Scorpions parecia ecoar “até breve, Fortaleza”, sem antes deixar o legado da presença que mergulhou muitas vozes em olhos marejados e estremeceu almas como furacões num verdadeiro transe musical. Blackout!

Todas as fotos por: Cris Machado Fotografias

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Abda Medeiros

*Profª Drª de Antropologia e Sociologia da Faculdade do Vale do Jaguaribe (FVJ), em Aracati, CE.
*Pesquisadora do Laboratório das Juventudes da Universidade Federal do Ceará (LAJUS/UFC).
*Participa da Rede Luso Brasileira de Pesquisa em Artes e Intervenções Urbanas do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS).
*Integra o Grupo de Estudos em Cultura, Trabalho e Educação da Universidade Federal Fluminense, Campus Angra dos Reis (GECULTE/IEAR/UFF).

 

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