Música

Aldir Blanc: amigos, parcerias e histórias

[O texto a seguir é uma colaboração de Neivaldo Araújo]

Aldir Blanc, nasceu e foi criado no Estácio, considerado berço do samba carioca, bairro onde nasceu também o lendário Ismael Silva, Luiz Melodia e tantos outros compositores. Na adolescência mudou-se para Tijuca, entrando, definitivamente, na boemia e na roda de compositores.

Em 1966, entrou na faculdade de medicina, tornando-se psiquiatra, porém logo abandonou a medicina para se dedicar a sua grande paixão, a música; ganhando notabilidade como um dos maiores letristas brasileiros.

Aldir Blanc gosta de ficar recluso no bairro onde mora, apesar da barba, dos cabelos longos de careca rebelde, da pele branca, da voz grave com sotaque inconfundível da Zona Norte carioca, alto e emotivo, do olhar que gosta de contemplar o vazio, quem conhece o compositor garante que ele é um sujeito… Absolutamente normal.

A música para Aldir foi a eterna busca de amigos e parceiros, juntos criaram diversos clássicos, canções eternizadas nas vozes de tantos intérpretes.

Sílvio da Silva Junior

Foi parceiro grande de Aldir Blanc ainda no tempo dos festivais, a parceria começou quando Aldir tinha apenas 16 anos e formaram o grupo GB-4, conjunto instrumental que se apresentava em programas da Rede Globo.

Canções da Parceria

“Amigo é pra essas coisas”, composta em 1970, foi classificada em 2º lugar no Festival da Tupi do Rio de Janeiro, a música foi um grande sucesso do Grupo MPB-4 e conta com mais de 120 regravações, quase sempre em duplas: João Nogueira e Emílio Santiago, Rui Faria e Chico Buarque, Milton Banana Trio, Quarteto em Cy e MPB-4, e os estrangeiros André Penazzi, Nazareno, Tim, Dálvaros e Tijuana Brass.
https://www.youtube.com/watch?v=kQ0jC1FNgts

“A Noite, a Maré e o Amor” em 1968 a música foi classificada no “III Festival Internacional da Canção” (TV Globo).

“Nada sei de eterno” em 1970 foi defendida por Taiguara no II Festival Universitário da Música Popular Brasileira”

Cesar Costa Filho

Foi parceiro de Aldir Blanc em outro grande momento da vida compositor, na época do MAU – Movimento Artístico Universitário, movimento musical que nasceu a partir da Era dos Festivais que mais tarde revelaria grandes nomes como Gonzaguinha e Ivan Lins.

Canções da Parceria

“De Esquina em Esquina”, interpretada por Clara Nunes, ficou em quinto lugar. No IV Festival Internacional da Canção da TV Globo em 1969.

“Diva” foi finalista do V Festival Internacional da Canção, porém não ficou entre as dez primeiras. A música foi muito bem defendida pelo próprio César Costa Filho.

“Velho Amor” canção gravada por Elizeth Cardoso em 1970.

“Ela” foi o título do disco de Elis Regina em 1971.

João Bosco

Foi, sem dúvida, o maior parceiro de Aldir Blanc, não seria exagero comparar essa parceria a Roberto e Erasmo, Tom e Vinicius, Ivan Lins e Vitor Martins, a dupla começou em 1972 e tiveram varias canções gravadas por Elis Regina.
Canções da Parceria

“Agnus Sei” foi a canção que deu início a parceria e lançada originalmente no projeto “Disco de Bolso”, criado por Sérgio Ricardo no Pasquim, era uma tentativa de criar canais de divulgação para novos valores da música brasileira, que apresentaria numa face um nome já consagrado e na outra um autor inédito. Para iniciar a coleção foram escolhidos, respectivamente, Tom Jobim e João Bosco.

“Corsário” é uma canção que a letra sugere diversas interpretações, fala de um homem frio em busca de novas expectativas para sua vida e parece ter sido inspirada em um poema de Maiakovski, principalmente depois que João Bosco, antes de cantá-la, declama os versos do poeta russo, o que faz sempre, desde 1989, quando ele regravou a canção que tinha gravado no álbum “Essa é sua Vida” em 1981, a canção teve como seu primeiro intérprete Ney Matogrosso em 1975. Uma versão muito conhecida foi gravada por Elis Regina, incluída no álbum póstumo “Elis Regina – Luz das Estrelas” de 1984. A canção também foi gravada por outros intérpretes, como Milton Nascimento e Daniele Mercury.

“De Frente para o Crime” trata de um assassinato e da indiferença que a tragédia provoca nas pessoas que a presenciam, no final o narrador também fecha a janela de frente pro crime e vai tratar da vida; um flagrante do cotidiano da cidade grande, cantada em ritmo de samba, bem sincopado e dá prosseguimento em termos modernos a uma vertente, que teve Wilson Batista na primeira metade do século, um dos principais cultores.

“Dois pra Lá e Dois pra Cá” é exemplo da versatilidade da dupla, sempre à vontade nos gêneros que exploram, a canção é um bolero bem construído, que parodia o próprio bolero, acentuando lhe os cacoetes, as rítmicas, as melódicas e as poéticas, esta sutil obra foi lançada por Elis Regina em 1974, que se destacam, além da sua interpretação, as atuações de Paulinho Braga no bongô e Hélio Delmiro na guitarra.

“Falso Brilhante” é uma espécie de samba-bolero lento, na gravação destaca-se o violão de João Bosco, contudo é bom lembrar que não foi esta a canção que inspirou o consagrado show homônimo da cantora Elis Regina, e sim outra composição de Bosco e Blanc, “Dois pra lá e Dois para Cá”.

“Incompatibilidade de Geniosa” na letra, com muito bom humor, o autor descreve ao advogado sua crise no casamento e no final manifestada o desejo de se separar, a música ganharia outra versão interpretada por Clementina de Jesus, lançada depois do carnaval de 1976.

“Kid Cavaquinho”, com o título inspirado nas lendas do Velho Oeste, foi escrita em 1974. Logo se tornou um grande sucesso da dupla, a canção receberia ainda uma vibrante interpretação de Maria Alcina.

“Linha do Passe” é outra grande composição da parceria, nesta canção contaram com a colaboração de Paulo Emilio Costa Leite, que é parceiro de João Bosco em outras composições.

“O Bêbado e a Equilibrista” é uma das canções mais conhecidas da dupla e foi composta em 1978. Um grande sucesso na voz da falecida cantora Elis Regina, se tornando uma espécie de hino da anistia e da abertura política, que o pais começava viver. Em um de seus versos, “sonha com a volta do irmão do Henfil”, faz-se referência ao cartunista Henrique de Sousa Filho, o qual na época tinha um irmão, o sociólogo Betinho, em exílio político no exterior.

Apesar de tanta conotação política, segundo João Bosco a ideia inicial da música era fazer uma homenagem a Charles Chaplin que tinha falecido no ano anterior, porém o que marcou foram as diversas referencias políticas da época e a bela interpretação de Elis.

“O Mestre Sala dos Mares” um típico samba-enredo que homenageia o marinheiro João Cândido do encouraçado Minas Gerais, que em 1910 chefiou um motim em protesto contra os maus tratos nas embarcações da Marinha de Guerra. Foi gravado originalmente por Elis Regina no LP de 1974, que leva o nome da cantora. Um ano mais tarde, o próprio João Bosco gravou esse seu empolgante samba. Cesar Camargo Mariano foi o orquestrador das duas gravações, mas, considerando as particularidades de cada intérprete, concedeu orquestrações diferentes para cada registro.

“O Rancho da Goiabada” é uma faceira marcha rancho que, pela primeira vez na MPB, discute a questão do “boia-fria”, numa linguagem que substitui a amargura pela dura ironia.

“O Ronco da Cuíca” jogando com as palavras, duplos sentidos e imagens paralelas, os versos da canção comparam a raiva com a fome, lembrando que “a raiva dá pra pagar, pra interromper, a fome não dá pra interromper”.

No final dos anos 80 a dupla se separou, o real motivo da briga sempre foi um mistério, quem conhece a dupla garante que ela aconteceu. Talvez o desgaste do longo tempo de parceria, os gênios e opiniões diferentes acabaram afastando os dois. A chegada dos anos 90 fez com que Aldir Blanc fosse buscar novos e múltiplos e parceiros.

Dessa fase:

Cristóvão Bastos

“Resposta ao Tempo” talvez seja o maior sucesso de Aldir Blanc após a parceria com João Bosco, a canção é um bolero, a letra é uma reflexão sobre o tempo, gravada por Nana Caymmi em 1998. Foi escolhida como tema musical de abertura da minissérie “Hilda Furacão”, exibida pela Rede Globo também em 98, e obteve bastante destaque, tendo sido muito executada nas rádios nesse ano, popularizando a cantora, que até então sofria o estigma de cantora para plateias sofisticadas.

O título da canção virou nome de uma biografia de Aldir Blanc, escrita pelo jornalista Luiz Fernando Vianna.

Guinga

“Catavento e Girassol” a canção deu titulo ao álbum lançado pela cantora Leila Pinheiro em 1996. Nesse álbum todas as músicas são da parceria Guinga e Aldir Blanc. Guinga gravou a música no seu álbum “Delírio Carioca” de 2006.

Cleberson Horsth

“A Viagem” é uma canção de Aldir Blanc, conhecido como um dos maiores intelectuais de sua geração, sem a menor cerimonia ou receio se aproximou da música brega romântica com a música “A Viagem”, gravada pelo grupo Roupa Nova, foi tema de abertura da telenovela homônima, exibida pela Rede Globo em 1994.

No total Aldir Blanc têm mais de 50 parceiros, outros expressivos são Moacyr Luz, Maurício Tapajós e Carlos Lyra. Alguns em só uma música, como Ed Motta, Sivuca, Paulinho da Viola, outros com duas, três, ou pouco mais, como Ivan Lins, Edu Lobo, Raphael Rabelo, Djavan, Sueli Costa.

Este post pertence ao QG
#QG

Neivaldo Araújo

Tendo aneivaldo música como seu maior referencial artístico e cultural, pesquisa e escreve sobre temas como o romantismo e o existencialismo dos anos 70 e 80, os quais, foram imprescindíveis para o surgimento e a qualificação dos movimentos musica
is brasileiros e internacionais.

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