Música

Gonzaguinha: político e romântico.

[O texto a seguir é uma colaboração de Neivaldo Araújo]

No último dia 29 de abril, completou 25 anos da morte do cantor e compositor Gonzaguinha, que partiu cedo, com 46 anos. Passou parte da infância no Morro de São Carlos, e nunca teve um bom relacionamento com o pai, o grande sanfoneiro Luiz Gonzaga, considerado um mito no Nordeste. No fim da vida de Gonzagão, como era conhecido, a música uniu os dois e juntos fizeram alguns trabalhos.

Existiam dois, Gonzaguinhas um era político, rancoroso, essa definição recebeu da mídia principalmente devido a canção “Comportamento Geral”, que pede para esquecer que está desempregado e rezar pelo bem do patrão e outro era romântico, moleque capaz de escrever lindas canções de amor que se tornaram sucesso na voz de cantoras, como Maria Bethânia e Simone.

Gonzaguinha soube com extrema competência fugir do estigma de “maldito” que estagnou a carreira de muitos artistas de sua geração, com sambas alegres, de bem com vida, como quem trazia uma nova esperança para o Brasil.

Vamos conhecer algumas das canções que definem bem essas duas vertentes do artista:

O Político

“Comportamento Geral” em 1973, Gonzaguinha participou do programa Flávio Cavalcanti apresentando a música num dos concursos promovidos pelo programa. Os jurados ficaram apavorados com a letra de protesto, a apresentação agressiva e pouco agradável aos olhos dos meios de comunicação, lhe valeu o apelido de “cantor rancor”.

Muita polêmica, uma advertência da censura, mas, em compensação, o compacto, gravado pelo compositor, que estava encalhado nas prateleiras das lojas, esgotou-se em poucos dias e logo Gonzaguinha pulava do quase anonimato para as paradas de sucesso na Rádio Tamoio e era convidado para gravar um novo disco.

“Dias Santos e Silva” é faixa de abertura do LP Moleque Gonzaguinha de 1977, uma descrição irônica e humorada do cotidiano da luta de um trabalhador.

“Geraldinos e Arquibaldos” aparece no terceiro disco de Gonzaguinha de 1975 e arrefece a tendência política do autor, a letra fala com carinho e amarga esperança da expectativa dos frequentadores das gerais e das arquibancadas dos estádios de futebol.

Esteve presente na trilha sonora da novela “Cama de Gato” (2009/2010) em duas diferentes gravações, Chicas e Gonzaguinha, também participou da trilha sonora de “Duas Caras (2007/2008) – Chicas.

“Pois é, seu Zé” revela a visão do autor sobre a vida urbana, fala da solidão, da violência e principalmente da alienação como defesa para sobreviver.

“Teatro de Revista” canção do LP Moleque Gonzaguinha de 1977, traz uma visão sofrida de uma época conhecida pelo seu glamour o Teatro de Revista um espetáculo teatral responsável pela revelação de inúmeros talentos no cenário cultural desde a cantora luso-brasileira Carmem Miranda, sua irmã Aurora, Odaleia Guedes dos Santos (mãe de Gonzaguinha) as chamadas vedetes de imenso sucesso como Suzy King, Wilza Carla, Dercy Gonçalves, Elvira Pagã, Mara Rúbia, Luz del Fuego.

“O Que é o Que é”, Além das canções mais pungentes e sofridas que lhe renderam muito sucesso, Gonzaguinha também era capaz de fazer música alegre e otimista, isso é o caso mostrado no samba, uma boa composição que, depois de justificar com inúmeras razões o direito a felicidade, explode num vibrante refrão que é um verdadeiro hino de amor à vida, em ritmo de samba enredo, o que sugere um canto coletivo e empolgado, como é de praxe do gênero.

“E vamos à Luta” música que deu título ao LP da cantora Alcione de 1980 e incluída no LP “De volta ao começo” de Gonzaguinha também de 1980, ativo apoiador do movimento estudantil da década de 70 e 80, Gonzaguinha compôs a música simples, alegre e bonita em homenagem aos militantes e a juventude que organizavam a resistência à gerência militar no país, apesar de tantas dificuldades a música é um alento à esperança.

“É” Gonzaguinha jamais abandonou sua verve político-social, já que em todos os seus discos sempre havia músicas que falavam dos rumos do país e da situação do povo brasileiro, esta canção foi um dos últimos grandes sucessos, (“A gente não tem cara de babaca”), de 1988, revela-se um protesto ainda incrivelmente atual: “A gente quer é ser um cidadão/ A gente quer viver uma nação.”, foi tema da abertura da novela Vidas em Jogo, da Rede Record, na gravação de 1988.

O Romântico

“Começaria Tudo Outra Vez”, foi seu primeiro grande sucesso, muito bem composto em ritmo de bolero, seria lançado por Maria Bethânia, não por coincidência a intérprete ideal de Gonzaguinha, é uma letra extensa, ao mesmo tempo sofrida e agressiva, que focaliza um conflito amoroso, irremediável, amenizado pela possibilidade de um esperanço recomeço.

“Explode Coração” canção de Gonzaguinha, intitulada originalmente “Não dar mais pra Segurar”, esta canção viria a ser conhecida como Explode Coração, devido o verso que representa o momento culminante da letra, aliás, das mais angustiadas, masoquistas e carregadas de amargor, com tal força dramática, a canção teria mesmo que “explodir” na voz de Maria Bethânia, em um dos seus melhores álbuns: Álibi de 1978.

“Grito de Alerta” obteve inspiração para a criação através de uma história vivida pelo cantor Agnaldo Timóteo, grande amigo seu. Foi o próprio Agnaldo que contou a Gonzaguinha a história em uma madrugada. Agnaldo estava vivendo um romance perturbado com Paulo Cesar Souza, cheio de desencontros e brigas. Comovido, Gonzaguinha escreveu “Grito de Alerta”, canção com uma personagem cheio de dores graças ao amor, e que clama ao amado por paz no relacionamento.

Porém, antes de Agnaldo saber da existência da canção, Gonzaguinha a entregou para a cantora Maria Bethânia, a canção de tema homoafetivo ganhou interpretação intensa e dramática pela cantora, responsável por outras canções de personagens que se entregam intensamente ao amor, e tornou-se logo um grande sucesso dela e um dos maiores êxitos do bem sucedido álbum Grito de Alerta de 1979, acabou entrando na trilha sonora da novela “Água Viva”, exibida pela Rede Globo no ano seguinte.

Quando Agnaldo Timóteo ficou sabendo da canção, Bethânia já tinha a gravado. Irritado por não ter sido o primeiro a gravar a canção cuja história era sobre ele, acabou sendo o segundo a gravar, sua versão foi adicionada ao álbum Deixe-me Viver, mas não conseguiu destaque. No ano seguinte foi Gonzaguinha quem a gravou no seu álbum De Volta ao Começo. Outras versões surgiram em 2001 por Emílio Santiago e em 2004 por Bruno e Marrone.

“Sangrando” canção de Gonzaguinha, escrita em uma época que o autor morava em Belo Horizonte, para muitos críticos sua melhor fase. A letra é um pungente declaração de amor, que ganharia na gravação da cantora Simone no seu álbum “Sou Eu” de 1993, sua melhor versão.

“Um Homem também Chora” também conhecida por Guerreiro Menino, a letra é uma crítica tanto ao capitalismo como ao machismo de uma forma bem sentimental, a musica se tornaria um grande sucesso na gravação do cearense Raimundo Fagner, no seu álbum de 1983, esta versão foi incluída na trilha sonora da telenovela “Voltei para Você” exibida em 1984 pela Rede Globo.

“Mamão com Mel” Gonzaguinha chegou aos anos 80 de pazes feita com a vida. Nessa época escreveu diversas canções falando das coisas boas da vida e do amor, sem dúvida esta é uma das musicas mais românticas do seu repertório, foi tema da novela Selva de Pedra exibida pela Rede Globo em 1986.

Em 2011 a canção voltaria a ser incluída em outra novela, – Aquele Beijo – , também exibida pela Rede Globo, em uma versão gravada por Thiaguinho, sendo a primeira canção do cantor em uma trilha sonora de telenovela.

Gonzaguinha, apesar de ter morrido prematuramente em um acidente automobilístico, figura entre os maiores compositores da música brasileira, sempre contestador, inquieto e polêmico, viveu intensamente, será eterno através de suas canções que constantemente são revisitadas pelas novas gerações da música popular brasileira.

neivaldoNeivaldo Araújo

Tendo a música como seu maior referencial artístico e cultural, pesquisa e escreve sobre temas como o romantismo e o existencialismo dos anos 70 e 80, os quais, foram imprescindíveis para o surgimento e a qualificação dos movimentos musicais brasileiros e internacionais.

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