Comportamento, Música

Iron Maiden em Fortaleza: “Excuse me”, o Bruce me pediu licença

O texto que segue é uma colaboração da antropóloga Abda Medeiros.

“Nas últimas horas, se eu tiver dormido oito horas foi muito, tamanha correria com os compromissos de trabalho e a expectativa para ir a outro show do Iron Maiden, desta vez em Fortaleza. Quem me conhece, sabe o quanto me dedico e aprecio o rock Metal, independente da banda ser local, nacional ou internacional. Para mim, o que efetiva e afetiva o meu interesse por esse universo musical e estilo de vida é a honestidade, dignidade e criatividade de como ele é experimentado, praticado e ressignificado por parte daqueles co10403556_1041959105853965_3760946641437406469_nm que ele se afina. E, penso eu, que a “donzela de ferro” faz parte dessa figuração inspirada, potencializada no espetáculo de cores, luzes, sons, performances e canções que cantam e encantam, despertam esperanças e renovam tantas outras, talvez adormecidas pela labuta cotidiana, nem sempre em harmonia com as alegrias e boas conquistas.

Ontem, 24 de Março de 2016, quem foi ou teve curiosidade de passar em frente ao Castelão, acompanhou de perto uma “outra face” que a cidade de Fortaleza adquiriu. Desde a última quarta-feira, quando o comandante (e vocalista da banda) Bruce Dickinson, aproximou o 747-400 da pista de pouso do Aeroporto Pinto Martins, o show se iniciava. As “cortinas do palco” do rock Metal se abriam, seguidas de um “Scream for me, Fortaleza”, gritado e surrado timidamente pelas mais de duas mil pessoas que ali estavam. Já quem esteve no Estádio, viram as quatro linhas do “templo do futebol” se transformarem em múltiplas linhas de estéticas musicais, nas quais o jogo da arte congrega profissionalismo, criatividade e paixão, num verdadeiro êxtase que elevam as consciências a um estado de transe, despertado, transtornado e potencializado pela música. O “Scream for me, Fortaleza” na prática!

Quem não se emocionou com os primeiros riffs de “Doctor, doctor” (inspiração do UFO para a banda)? Com os fogos, os Eddies, as imagens do fundo de palco, as acrobacias dos músicos e aquele belo coral aos gritos de “Maiden, Maiden, Maiden”? Por acaso, alguém não sacou a “pedagogia musical” antes, durante e depois da execução da canção “Powerslave” em conjunto com a bandeira brasileira?! Não sei você, mas eu fui às lágrimas durante “Hallowed be thy name” e a última da noite “Wasted Years”. Foi o meu êxtase! Certamente, a expressão de minha gratidão pela força da música do Metal, especificamente a do Maiden, que energiza os meus dias e trabalhos acadêmicos. Saí daquele espetáculo agradecendo por tudo o que eles já fizeram pelo Metal e me perguntando se ainda há algo para ser feito…

A euforia da noite não me deixou adormecer. E, logo na manhã de hoje, desloquei-me na companhia de amigas – parceiras de minhas aventuras nos últimos dias e que suportaram o ritmo alucinante das minhas horas – em direção ao aeroporto. Precisava encerrar o show que ainda pulsava na alma, assistindo à decolagem do avião. Ao adentrar o portão 2 do terminal de embarque, apressei-me, distraída com o que se processava dentro de mim; e quando de repente tentei duelar a entrada com a tripulação que acabara de chegar, uma das colegas tocou o meu braço e me disse: “Abdaaaa, o Bruce!”. Lado a lado, um senhor vestido como comandante, discreto, educado e conduzindo a própria bagagem, ao ouvir a pronúncia de seu nome levantou o olhar, sorriu sutilmente e disse: “Excuse me”. E nós, silenciosamente (e quase religiosamente), permitimos que passasse na nossa frente. Os demais integrantes da tripulação nos observaram com aquele sorrisão no rosto e, de repente, estávamos ali em mais um momento de ÊXTASE.

Algumas horas depois, logo que os televisores indicaram “last call” para o voo 0666 com destino a São Paulo, nos deslocamos em direção ao mirante para a decolagem do Ed Force One. Ao perceber que a aeronave iniciava seus primeiros movimentos de ré, em direção à pista de decolagem e a lentidão que o ontem vocalista, e hoje, comandante Bruce imprimia à aeronave, sentia dentro de mim como se as “cortinas do palco” começassem a se fechar, anunciando assim, o fim do espetáculo. Ao meu lado, inúmeras câmeras fotográficas, curiosos e gritos de “Maiden, Maiden, Maiden”, orquestravam a trilha sonora. Na pista do aeroporto, apenas uma aeronave da TAM era testemunha da espera para que a “águia sonora” ganhasse velocidade e alcançasse os céus de Fortaleza. Era o fechamento das cenas das últimas horas para serem eternizadas nos céus de minha memória, da memória de quem fez parte deste momento, e que de agora em diante, talvez dirá sabiamente como disse uma de minhas amigas, após o nosso brevíssimo encontro com o comandante Bruce: “Ele sabe que a gente existe!”. Ou melhor: Fortaleza, o Maiden sabe que você existe! Scream for me, Fortalezaaaaaaaa! Scream for me, Brasil!

“So understand/Don’t waste your time always searching/For those wasted years/Face up… make your stand/And realize you’re living in the golden years.”

[Wasted Years]”

12107282_1Professora de Antropologia e Sociologia na empresa Fvj Aracati, Pesquisadora Científica na empresa Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação, Arte e Cultura (GECULTE) – Universidade Federal Fluminense (UFF/Angra dos Reis) e Pesquisadora na empresa Laboratório das Juventudes (UFC) e Rede Luso Brasileira de Pesquisa em Artes e Intervenções Urbanas (ICS Universidade de Lisboa/UFC).

 

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