Música

Alucinação, de Belchior – 40 Anos

[O texto a seguir é uma colaboração de Neivaldo Araújo]

Em 2012, o jornal O Povo, um dos mais tradicionais jornais de Fortaleza, fez uma pesquisa entre críticos e internautas para saber qual é o melhor disco da Música Cearense de todos os tempos, foi uma disputa difícil entre os álbuns citados, constam os discos de estreia solo dos cantores Raimundo Fagner, Manera Fru Fru (1973) e Ednardo O Romance do Pavão Mysterioso (1974), Meu corpo minha embalagem todo gasto na viagem (1973) de Ednardo, Rodger e Teti, disco que deu origem ao movimento Pessoal do Ceará e o antológico disco manifesto Massafeira (1980), porém o grande vencedor entre críticos e internautas foi o segundo álbum do cantor Belchior, Alucinação lançado em 1976 pela POLIGRAM com dez canções todas de sua autoria.

BELCHIORAfinal, o que esse álbum tem de tão especial para ser uma unanimidade cearense? Em minha opinião três pontos são fundamentais: o momento histórico do disco que Belchior descreve tão bem, a repressão que os artistas viviam através da censura: “Por favor, não saque a arma no “saloon” eu sou apenas um cantor / Mas se depois de cantar você ainda quiser me atirar / Mate-me logo, à tarde, às três, que à noite tenho um compromisso / E não posso faltar por causa de você”. Seria uma mensagem aos militantes, que eles não tinham o que temer os cantores, que apenas queriam cantar o que pensam, “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”, evidencia a esperança de dias melhores e mais liberdade. As letras de, modo geral, transmitem diversas interpretações e temáticas, como solidão urbana, violência, cotidiano, desencontros habituais, formando um grande painel de sua geração.

O segundo ponto seria o repertório do disco, um verdadeiro desfile de canções que se tornariam clássicos no repertório de Belchior, destacando a faixa inicial “Apenas um Rapaz Latino Americano”. Uma canção biográfica que se inicia citando sua origem latinoamericana e humilde, a letra cita ainda trecho da canção “Divino Maravilhoso”, de Gilberto Gil e Caetano Veloso, que diz: “Tudo é divino! Tudo é maravilhoso!”, ao finalizar a canção, se posiciona contrário àquela visão exposta anteriormente afirmando: “Mas sei que nada é divino / Nada / Nada é maravilhoso, nada / Nada é secreto, nada”. A Palo Seco mais uma vez a influência latinoamericana aparece forte. Há diversas teorias ou definições que tentam explicar o título, que nitidamente faz referência a um poema de João Cabral de Melo Neto e é uma de suas canções mais regravadas, além do autor, que gravou em seu o primeiro disco, Mote e Glosa (1974), foi registrada também por Raimundo Fagner, no álbum Ave Noturna (1975) Ednardo no Romance do Pavão Mysterioso (1973). Oswaldo Montenegro também gravou uma versão acústica desta canção no DVD “Um Barzinho e Um Violão”, de 2001. A banda carioca Los Hermanos incluiu a canção sem suas apresentações, citando a influência de Belchior. Como Nossos Pais” talvez seja o grande clássico de Belchior, a letra critica a acomodação dos jovens diante dos problemas da vida, virou o hino de uma geração, a canção também foi um grande sucesso da cantora Elis Regina, gravada no disco Falso Brilhante de 1976, a música trouxe para Elis, uma aproximação com a linguagem pop, coisa que nunca ocorrera antes.

Alucinação”, faixa que dá título ao álbum, é quase uma afronta ao seu tempo e apresenta claramente o mundo real e as condições de existência como sendo sua alucinação, não sendo necessária “essas coisas do oriente” pois, “suportar o dia a dia” e a “experiência com coisas reais” são suas alucinações e delírios”, segue em tom melancólico um relato do cotidiano, meditações sobre a sociedade, a vida repetitiva e vazia e suas hipocrisias, mas ao fim de tudo ele nega essa melancolia dizendo, mais uma vez, que não está interessado em nenhuma teoria, a canção ganhou uma versão moderna da banda gaúcha Os Engenheiros do Hawaii, lançada no álbum Minuano em 1997. Em “Velha Roupa Colorida Belchior alerta para as profundas mudanças que aconteceriam no mundo, principalmente na música e no comportamento da juventude, mudanças que se conformaria nos anos seguintes, a letra faz referência a duas canções dos Baetles “She’s leaving Home” e “BlackBird” e uma de Bob Dylan, “Like a Rolling Stone”, a cantora Elis Regina gravou a canção no álbum “Falso Brilhante” com um arranjo totalmente diferente do original.

Para terminar, outro ponto definitivo do sucesso do álbum, é seu autor, devido à belchioorcomplexidade de suas letras, sua obra, em alguns momentos é comparada a Chico Buarque e Caetano Veloso e outros grandes nomes da MPB, buscando fazer letras e melodias de alcance mundial, fugindo do forte regionalismo, tão comum em cantores nordestinos, com apenas dois discos lançados Belchior é consagrando um dos maiores compositores de sua geração, chegando a ser aclamado por muitos, um gênio.

Na metade da década de 80, esse disco era uma das estrelas da discoteca do meu irmão, estranhamente não tinha encarte que trazia as letras e ficha técnica de todas as músicas, só conheceria o encarte deste disco nos sebos do centro da cidade.

Os 40 anos de lançamento do disco serão comemorado em um show no Sesc Pinheiros no dia 25 de fevereiro com a participação de nomes da nova cena musical brasileira como Dani Black, Pélico, Hélio Flanders (Vanguart) e Teago Oliveira (Maglore). O objetivo da iniciativa é revisitar os clássicos produzidos pelo músico cearense. “Na maioria das músicas que serão tocadas no evento, os arranjos são bem semelhantes aos originais, mas alguns foram alterados, para dar uma linguagem mais atual ao projeto”, afirmou Xuxa Levy, maestro responsável pela direção artística e musical do evento.

Alucinação é um exemplo de disco atemporal, por mais que Belchior, suma da mídia, que sua figura se torne cada vez mais enigmática, sua obra jamais será esquecida.

[Para meu irmão Luís Neto]

neivaldoNeivaldo Araújo

Tendo a música como seu maior referencial artístico e cultural, pesquisa e escreve sobre temas como o romantismo e o existencialismo dos anos 70 e 80, os quais, foram imprescindíveis para o surgimento e a qualificação dos movimentos musicais brasileiros e internacionais.

Anúncios

1 thought on “Alucinação, de Belchior – 40 Anos”

Ajude-nos a melhorar. Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s