Comportamento

O canto e o grito

A Copa do mundo Fifa 2014, que acabou de acontecer em nosso país, despertou todo tipo de paixão.

Em meio a protestos, desconfianças e suspeitas, e, a despeito dos desvios de verbas, tráfico de influências e o sucesso concreto da organização, a antropóloga Abda Medeiros, lança um olhar atento e despreconceitualizado, sobre este acontecimento que, para o brasileiro é mais do que um campeonato futebolístico, é algo intimamente relacionado à sua autoestima.

10352037_894259090591326_6214087632795311847_n“Se a Copa no Brasil tivesse sido feita para os brasileiros, trabalhadores, assalariados, gente que enfeita as ruas e morre de amores pela seleção em campo, a história seria diferente.

Ando nas ruas e vejo essas paixões pulsando entre nós e jamais diria que isso são atitudes de alienados. Tudo tem um sentido, uma razão que a nossa própria desconhece. Vejo o diálogo entre brasileiros e estrangeiros, sorrisos largos, tentativas de quebrar qualquer barreira entre eles e nós. É uma festa dos pedaços que nos aproximam e singularizam.

Por outro lado, se o desejo de estar lá no Estádio é sublimado nos encontros com a vizinhança e familiares, com direito às guloseimas e bebidas, a repressão contra os protestos funcionou como um “tá ligado”. Do tipo que atravessa a garganta, invade os poros e tateia as pulsões de Tânatos que nos habitam. Como postou um colega de Manaus, nunca se teve depois de 1970, um campeonato de tanta qualidade técnica e jogos emocionantes, na mesma proporção dos usos da força para quem for às ruas fazer o evento, contrariando o estabelecido. Que lástima!

Não acredito num campeonato “comprado” para que o Brasil seja campeão. Seria subestimar os atletas e todo o trabalho realizado para que joguem bem e brilhem, permitindo fluir “helenos”, “garrinchas”, “maradonas” etc. Isso não significa encobrir os jogos de poder, inclusive suspeitos e transversais, que envolvem um campeonato mundial e as instituições que o configuram.

Sendo assim, por mais explorados ou vivenciando situações de perdas e exclusão, os humanos se reinventam. Retiram proveito das situações mais adversas e experimentam a copa pelas bordas do controle, dos mandonismos e do instituído. Veja o que fizeram os chilenos no Maracanã e os argentinos em POA; e os habitantes de cada cidade sede que não foram no jogo, mas fazem do jogo a arena na qual as categorias culturais da produção e do consumo se tornam evidentes.

A minha leitura do campeonato fífico é cultural e a forma de experimentá-lo é no estilo “máquina de guerra”, numa alusão a Deleuze & Guatarri. Ou seja, “por uma certa maneira de ocupar, de preencher o espaço-tempo, ou de inventar novos espaços-tempos”. Uma práxis que eu desejo sempre como companhia e busco cultivar todos os dias. Porque o que pode despertar o canto em alguém, certamente pode me fazer gritar. E vice versa. Ou se desdobrar em outras formas de “guerrear”.

(Reflexão inspirada pela partida entre Nigéria e Argentina, ou seja, tendo a garra e a serenidade como fios condutores. Em 25/06/2014).”

 

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3 comentários em “O canto e o grito”

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