Comportamento, Música

Rock de bike

Não precisa entupir os ouvidos com fones a todo volume para fazer de um passeio de bicicleta por Fortaleza uma experiência punk, sobretudo se este for feito em dia útil, à noite, quando os automóveis são vultos maciços que assombram pelas costas. Se ele ainda for ao lado do guitarrista Amaudson Ximenes, é fato que sua atividade aeróbica ganhará os matizes de uma história de pelo menos três décadas, adormecida sob as camadas obscuras e sucessivas de asfalto e por trás de platibandas e paredes coloridas de estabelecimentos comerciais.

Guitarrista da banda de death metal Obskure, presidente da Associação Cearense do Rock (ACR) e, pra quem não sabe, vice-campeão cearense de bicicross em 1988, Amaudson, 42, é um sujeito baixo, de cabelos longos, barbicha e conversa fácil, que à menor provocação escava histórias do subsolo de Fortaleza.

“É bike! Não tem jeito, não”, conclui ele assim que nos encontramos na pracinha da Gentilândia (a menos iluminada das duas). 19 horas e os carros cumprem sua sina. Depois de 30 minutos, quando não se pode dizer ainda que o “trânsito flui com tranquilidade”, partimos numa prévia da bicicletada de hoje, que percorrerá alguns dos locais emblemáticos da história do rock em Fortaleza.

Descemos a Avenida da Universidade e, antes de cruzar a Domingos Olímpio, passamos em frente ao antigo Cidadão do Mundo, bar que abrigou shows de rock em meados da década de 1990 e hoje é o comitê de um candidato a vereador. Seguimos no embalo, nos embrenhando numa cidade cada vez mais embaciada. Rua Antônio Pompeu, rua Meton de Alencar, avenida Duque de Caxias e estamos no Centro.

Próximo ao que será uma estação do MetroFor, o saudoso Casarão Cultural, na rua Tristão Gonçalves, 368, onde foram realizados os primeiros ForCaos e as reuniões inaugurais da ACR, hoje é uma loja de tecidos. Durou de 1995 a 2001, um recorde para a cena.

“Só acabou por causa da especulação imobiliária que veio com o Metrofor. Passou foi tempo com os tapumes na frente. Quando desinterditaram, valorizou-se muito aquilo ali na época, aí foi vendido”, conta Amaudson.

Seguimos na rua São Paulo, praticamente deserta. Em sua aro 100, de luvas, joelheiras e capacete, Amaudson lembra dos tempos de adolescência em que aterrorizava as noites do Centro, num magote de meninos, hell’s angels mirins. “A gente beirava a delinquência”, afere quase três décadas depois. Rasgavam sacos de lixo, insultavam travestis e pedalavam sempre munidos de barras de ferro. Rock e bike são indissociáveis para ele, que conheceu o estilo musical em campeonatos de skate e bicicross.

Na ladeira

Quando Amaudson conclui o relato dos feitos juvenis, já contornamos a Catedral, subimos a Rufino de Alencar, quebramos à esquerda na rua Dom Manoel e começamos a descer de banguela a ladeira do Dragão do Mar, mão no freio, cuidando para não atropelarmos os integrantes de uma quadrilha junina. Assim chegamos à rua José Avelino.

“Aqui tem história…”, anuncia, enquanto se apruma no selim e deixa os pés descansarem sobre os pedais, aproveitando o impulso da ladeira, sem pressa, como que repassando as cenas presenciadas naquele quarteirão entre as ruas Almirante Jaceguai e Senador Almino.

Percurso contrário
No Padang Padang, onde hoje funciona a casa de shows Mocó Studio, ele realizou um feito memorável – um mosh às avessas. Ao invés de, como manda a tradição, pular do palco sobre o público, fez o percurso contrário: com uma das pernas quebradas, chegou ao palco por cima da pequena multidão, nos braços do Paulão, um policial do Gate de dois metros de altura por um de largura que fazia bico de segurança no show. “Tava lotado, não dava pra passar pelo pessoal”, conta rindo.

Logo à frente, no Hey Ho! Rock Bar, foram realizadas edições recentes do ForCaos. O espaço foi um dos mais perenes da cena, durou sete anos e recebeu uma programação intensa. Na esquina adiante, os extintos Noise3D e Peixe Frito.

Quanto mais nos aproximamos do mar, adensa-se o número de antigos redutos do rock na Praia de Iracema.

O Jokerman recebeu bandas de todos os tipos na Rua dos Potiguaras. Perto dali, funcionou o Toca Macloyd, El Bodegon, Celso 90°, Excelência Bar, Relicário e The Club, este já no final da Rua dos Tabajaras, onde o Amaudson lembra de uma fatídica roda punk: “Entrei num roda aqui de chinela. Levei um chute que a minha unha voou. Pense. Estanquei o sangue com vodka Slova!”.

Ladeando o calçadão da Praia de Iracema, numa euforia de cores e patins digna de clipe de hardcore teen, chega-se à conclusão de que a intermitência dos bares e casas de shows faz parte da cadeia alimentar urbana, na qual os predadores mais ferozes são a especulação imobiliária e vizinhanças, não sem razão, arredias à perturbação sonora. A extinção é fato, que se encara com certa naturalidade, mas que causa incômodo nos casos mais brutais, como o do Centro Massapeense.

“Olha aí no que se transformou o Centro Massapeense”, aponta Amaudson. Um condomínio de luxo de 23 andares, erguido na avenida Historiador Raimundo Girão sobre o clube que recebeu durante breve período shows de rock, a exemplo daquele organizado para arrecadar recursos para o enxoval do primeiro filho do Negão, baterista da Obskure na época.

Matéria publicada no Jornal Opovo do dia 14/07/12. Disponível em: http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2012/07/14/noticiasjornalvidaearte,2878137/rock-de-bike.shtml

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